Salmito Campos (1)

O Mutualismo Entre Formigas e Plantas

“Muita gente pensa que aves e outros animais grandes são os responsáveis exclusivos pela dispersão de sementes na floresta. Os vertebrados são fundamentais, mas uma vez que a semente cai no chão, as formigas são as dispersoras”, afirma o cientista biólogo Paulo Oliveira, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp.
Oliveira é especialista em interações entre formigas e plantas. Existem em torno de 15 mil espécies de formigas identificadas pela ciência. As formigas, insetos sociais, são responsáveis pela chamada dispersão secundária das sementes.
O trabalho que realizam — de transporte da semente para o ninho e ingestão da energia contida na polpa do fruto que tomba no solo, deixando-o limpo e livrando-o de infestação por fungos — facilita a germinação da semente.
A dispersão primária cabe a aves, macacos, morcegos e outros animais maiores, como o lobo-guará, que são atraídos pelos frutos coloridos e com polpa saborosa. Esses animais percorrem longas distâncias e lançam as sementes dos frutos no solo, aumentando as chances de as plantas colonizarem outros territórios e garantirem a diversidade genética de um ecossistema.
A importância desses pequenos invertebrados, os mais numerosos entre os insetos em um ecossistema terrestre, aumenta à medida que a ação do homem produz seus efeitos no planeta. Na era geológica atual, que leva o nome de Antropoceno, um desses efeitos é a onda de perda de biodiversidade, como a que cientistas projetam no Cerrado brasileiro, caracterizada pelo desaparecimento de parte dos animais grandes que realizam a dispersão primária.
As formigas sofrem menos as interferências da atividade humana. Elas interagem com outras espécies de insetos, plantas e vertebrados. Além disso, as formigas reinam no solo da maioria dos ecossistemas terrestres do planeta, sendo os animais — junto com os cupins — mais abundantes. “Imagine um quadrado na Amazônia de 100 metros por 100 metros — ou 1 hectare.
Contaremos 8 milhões de formigas. Amplie agora isso para outras regiões tropicais do planeta e terá ideia do quanto a formiga é comum”, comenta Paulo.
Oliveira ressalta o papel ecológico estratégico das formigas para a sobrevivência dos biomas no mundo e dedica-se aos efeitos das alterações do homem no planeta na interação entre esses insetos sociais e as plantas.
A intervenção do homem no planeta tem provocado mudanças na configuração dos ecossistemas globais, como a destruição ou a degradação de áreas nativas. A comunidade científica também estuda a relação entre o aumento da temperatura média do planeta com as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no Antropoceno. Os cientistas desconhecem com precisão como será o impacto dos efeitos das mudanças na vida de todas as espécies. O desequilíbrio dos ecossistemas é um dos indícios.
“Há registros de áreas específicas nas savanas africanas em que a presença de formigas invasoras no ecossistema tem gerado desequilíbrio. Uma das consequências é que as acácias, antes protegidas pela interação com as formigas do gênero Crematogaster, estão sendo devastadas pela ação dos elefantes, que comem o arbusto desprovido de defesa”, diz Oliveira.
As formigas são indicadores do estado de conservação de um ecossistema. Na hipótese de os pequenos animais nativos desaparecerem, não haveria mais animal que aerasse o solo, que ficaria mais compactado. A adubação decairia consideravelmente. Muitas das plantas que as formigas protegem ficariam desprotegidas. Outras seriam mais comuns, sendo dominantes. Muitos dos herbívoros que as formigas combatem seriam preponderantes.
“É uma bola de neve. Quando há desequilíbrio, as formiguinhas são afetadas tanto quanto os outros animais”, destaca o biólogo.
(https://unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/10/25/uma-interacao-de-100-milhoes-de-anos/).
Prof. Salmito Campos – (jornalista e radialista).

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