Herculano Costa

Entre a passividade e a grosseria: o caminho da maturidade

Vivemos tempos em que os extremos parecem disputar o protagonismo do comportamento humano. De um lado, há quem associe excessiva educação à fraqueza, ingenuidade ou falta de personalidade. De outro, há quem confunda firmeza com agressividade, espontaneidade com grosseria, autenticidade com desrespeito.
A propósito desse confrontamento comportamental, de um lado a educação excessiva, do outro a intempestividade agressiva, fomos convidados a palestrar para um grupo de professores do ensino fundamental (séries finais) de uma escola pública numa pequena cidade da nossa região. Na reunião estavam também diretor e coordenadores de ensino da escola, pais de alunos, e representantes do Conselho Tutelar local. A reunião tinha por finalidade buscar alternativas razoáveis de diálogo na comunidade escolar, com vistas a conter distorções comportamentais oriundas de vivências extraescolares de alguns alunos em prejuízo de uma boa convivência geral.
Na discussão eis as temáticas colocadas:
“Ser muito educado é sinônimo de ser bobo, delicado, afeminado? Ser intempestivo é sinônimo de ser grosseiro, insuportável, mal-educado? Como adotar uma posição intermediária para formar uma personalidade dignamente aceitável e de agrado da maioria das pessoas com quem se convive mais frequentemente”?
Como a colocação das temáticas me deixaram em dúvida quanto ao público-alvo, coube-me indagar: referem-se a posicionamentos de docentes ou a comportamentos de alunos?
– Pretendemos tratar dos dois casos, acudiu o Diretor da Escola.
– Muito bem, concordei. Então, em primeiro momento conversemos francamente sobre o conviver dos docentes com o alunado. Depois, noutra oportunidade, trataremos do vice-versa da questão.
Vamos lá. No convívio diário com nossos pupilos, será que precisamos mesmo escolher entre ser “bonzinhos” ou “duros” com eles?
Entre ser “delicados demais” ou “bastante intempestivos” a resposta está na maturidade e moderação, no tocante à interação professor-aluno, tendo em vista que:
Primeiro – Educação não é fraqueza. Ser educado não é ser submisso. Educação é saber conviver. É reconhecer que o outro tem fragilidades, mas, também, tem dignidade. Também, não se trata de baixar a cabeça para tudo, mas de saber se posicionar com respeito.
A verdadeira força não está no tom elevado da voz, mas na capacidade de manter a serenidade, mesmo diante de conflitos. A pessoa madura tem que saber dizer “não” sem humilhar; saber discordar sem atacar; saber corrigir sem ofender. E isso se chama assertividade.
Segundo – Firmeza não é grosseria. Por outro lado, também é um erro acreditar que ser espontâneo justifica ser rude. A intempestividade — agir movido apenas pela emoção do momento — geralmente gera insucesso no trato com o problema e arrependimento posterior.
A pessoa que fala tudo o que pensa, do jeito que pensa, na hora que pensa, pode até parecer autêntica, mas, frequentemente, causa feridas desnecessárias. E caráter não se mede pela intensidade das palavras, mas pela qualidade delas.
Ser firme é diferente de ser áspero. Ser claro é diferente de ser cruel. Ser direto é diferente de ser presunçoso, desrespeitoso.
Terceiro – O ponto de equilíbrio: a personalidade equilibrada. Uma personalidade dignamente aceitável — e socialmente agradável — constrói-se sobre três pilares a saber:
Autoconhecimento – Quem se conhece sabe de seus limites, suas emoções e suas fragilidades. Isso impede tanto a submissão exagerada quanto as explosões descontroladas.
Autocontrole – Sentir raiva é humano. Descontar nos outros é imaturidade. O autocontrole não é repressão, mas gestão inteligente das emoções.
Empatia – Antes de falar ou agir, pergunte-se: “Se fosse comigo, como eu me sentiria?” Esse simples exercício muda o tom das relações.
Quarto – A arte do “meio-termo”. O meio-termo não é indecisão. É sabedoria. Ele permite: Defender ideias sem atacar pessoas. Corrigir erros sem humilhar. Manter firmeza sem perder a delicadeza. Ser gentil sem se tornar manipulável. A maturidade social consiste em unir bondade com firmeza.
Quinto – Uma proposta prática para os jovens. Sugere-se aos jovens três perguntas antes de agir ou responder: É verdadeiro? É necessário? É respeitoso? Se a resposta às três indagações for “sim”, provavelmente estão no caminho do equilíbrio.
Conclusão – A personalidade admirável não é a que agrada a todos — porque isso é impossível —, mas aquela com a qual se consegue ser coerente, equilibrado e respeitoso. Ser educado com firmeza, (e firmeza em educação), é sinal de inteligência emocional. O mundo não precisa de pessoas agressivas nem de pessoas apagadas; precisa de pessoas conscientes, preparadas.
Formar essa personalidade é um processo. Exige prática, reflexão e humildade para aprender com os próprios erros. Mas é esse o caminho para relações saudáveis e para uma convivência verdadeiramente humana.
Por Herculano Costa (*) – Jornalista – ACI N° 1.216 – Professor, Escritor e Poeta.
(*) – Neuropsicanalista Clínico – CNP N°09/4.159 – (88) 9 3500.1970 – WhatsApp

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