{"id":8511,"date":"2019-07-30T02:05:18","date_gmt":"2019-07-30T02:05:18","guid":{"rendered":"https:\/\/correiodasemana.com\/site\/?p=8511"},"modified":"2019-07-30T02:05:18","modified_gmt":"2019-07-30T02:05:18","slug":"flanelas-da-solidao-historias-de-pessoas-em-situacao-de-rua-na-cidade-de-sobral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/correiodasemana.com\/site\/flanelas-da-solidao-historias-de-pessoas-em-situacao-de-rua-na-cidade-de-sobral\/","title":{"rendered":"Flanelas da solid\u00e3o: Hist\u00f3rias de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na cidade de Sobral"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vindas de outras cidades ou filhas da mesma Sobral, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua encontram no servi\u00e7o de \u201cflanelinha\u201d um meio para sobreviver. Fome, frio e solid\u00e3o s\u00e3o sentimentos di\u00e1rios nas vidas desses seres humanos<\/strong><\/p>\n<p>Ao caminhar pelas ruas de Sobral \u00e9 comum deparar-se no meio da beleza de sua hist\u00f3ria, arquitetura e grandiosidade cultural com milhares de pessoas diariamente flanando ao passo de suas rotinas e compromissos. No meio da agita\u00e7\u00e3o, sempre com flanelas nos ombros ou nas m\u00e3os, segurando papel\u00f5es ou baldes com \u00e1gua se encontram pessoas que fazem do servi\u00e7o de flanelinha (guardador de autom\u00f3veis) uma fonte de renda para tentarem sobreviver nas ruas; local onde muitos residem. Dias quentes, noites frias, fome, olhares de desprezo e cora\u00e7\u00f5es solid\u00e1rios resumem o que acontece no dia a dia desses indiv\u00edduos que se sentem sozinhos no mundo.<br \/>\nNo Cear\u00e1, j\u00e1 s\u00e3o 18.817 pessoas que vivem em situa\u00e7\u00e3o de rua segundo o \u2018Plano Estadual de Aten\u00e7\u00e3o a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua\u2019 para o quadri\u00eanio 2019-2022, divulgado no ano passado, com dados referentes a atendimentos por rede de prote\u00e7\u00e3o social em 66 dos 184 munic\u00edpios do estado. Em Sobral, cidade localizada a 220 km da capital cearense, Fortaleza, ainda segundo o mesmo Plano Estadual, 730 pessoas viviam nas ruas.<br \/>\nNas redondezas de um dos locais considerados sagrados na cidade, pr\u00f3ximo a uma das belas igrejas, correndo de um lado para outro protegendo in\u00fameros autom\u00f3veis, com simpatia e determina\u00e7\u00e3o em desenvolver o seu of\u00edcio, vive Jean* (*nome fict\u00edcio), 39. Nascido e criado em um munic\u00edpio que fica 350 km de dist\u00e2ncia da capital do estado do Cear\u00e1, ele decidiu sair de casa no ano de 2012 logo ap\u00f3s a morte dos pais e problemas conjugais com a esposa; o que resultou em separa\u00e7\u00e3o. Faz um pouco mais de um ano que ele chegou a Sobral, antes disso passou tr\u00eas anos em Fortaleza, onde tentava sobreviver levando a mesma vida.<br \/>\nJean se sente mais seguro desde o m\u00eas passado quando uma amiga que ele fez na cidade deixou-o dormir na casa dela: \u201cEla me deixa entrar, tomar banho, me oferece comida. L\u00e1 dentro me sinto mais seguro, durmo tranquilo. Mas muitas vezes acabo perdendo o hor\u00e1rio, pois o movimento aqui vai at\u00e9 tarde, e com vergonha de incomod\u00e1-la decido dormir na rua mesmo\u201d, argumenta ele que tamb\u00e9m utiliza o rio Acara\u00fa para se refrescar ou tomar banho quando sente necessidade.<br \/>\nUm dos sonhos de Jean \u00e9 conseguir alugar uma casa e deixar de enfrentar o perigo que corre todos os dias: \u201cDormir na rua \u00e9 perigoso. A gente dorme acordado. Temos que prestar aten\u00e7\u00e3o, pois j\u00e1 n\u00e3o temos muita coisa e existem pessoas que querem nos fazer o mal. \u00c9 triste porque muitas vezes s\u00e3o pessoas que vivem nas mesmas situa\u00e7\u00f5es que a gente\u201d, ressalta ele.<\/p>\n<p>Refei\u00e7\u00f5es e sentimentos<br \/>\nDesde que chegou \u00e0 cidade, as pessoas tem se mostrado generosas: \u201cDe segunda a s\u00e1bado logo que acordo j\u00e1 me chamam para tomar caf\u00e9, na hora do almo\u00e7o me chamam para fazer a refei\u00e7\u00e3o. S\u00f3 nos domingos n\u00e3o ganho por conta que todos v\u00e3o almo\u00e7ar fora\u201d, destaca ele. O jantar sempre \u00e9 mais complicado, \u00e9 uma refei\u00e7\u00e3o rara na vida de Jean: \u201cO trocado que ganho com o que fa\u00e7o ajuda muito na minha alimenta\u00e7\u00e3o. Agora estou procurando colaborar mais para isso: me afastando de bebidas e pessoas que convidam para beber. Mas \u00e9 muito confortante ver que existem pessoas de bom cora\u00e7\u00e3o que sempre nos doam alguma coisa para comer. Mas n\u00e3o ter o que comer \u00e9 triste\u201d, confessa ele.<br \/>\nJean deixou em sua cidade natal seus dois filhos (um menino e uma menina); com os quais sempre mant\u00e9m contato por telefone quando pode e, seus irm\u00e3os que sabendo de suas condi\u00e7\u00f5es atuais, fazem convites com frequ\u00eancia para ele voltar. Os convites foram negado v\u00e1rias vezes, pois segundo ele v\u00e1rias decep\u00e7\u00f5es embasam a hist\u00f3ria: \u201cGosto de autonomia, sem ter ningu\u00e9m para mandar. N\u00e3o gosto de pessoas duas caras\u201d, enfatiza ele que segue enfrentando a solid\u00e3o e o frio; dois sentimentos complicados em sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>As \u201cNecessidades\u201d de Sobreviv\u00eancia<br \/>\nEm uma pra\u00e7a da cidade, outro flanelinha andava apressado tentando cobrir duas \u00e1reas de trabalho: o vizinho de profiss\u00e3o, tamb\u00e9m em situa\u00e7\u00e3o de rua, havia sa\u00eddo para comprar drogas com o dinheiro conseguido durante o dia. Teodoro* (*nome fict\u00edcio), 49, lembra do dia que foi atropelado e n\u00e3o recebeu socorro do motorista: \u201cEra dia quando fui atravessar a rua e um carro me acertou. Apesar da dor que senti no momento e depois, dor maior foi quando pensei que ele fez isso e nem parou, seguiu em frente; me tratou como se n\u00e3o existisse, como se n\u00e3o fosse ningu\u00e9m que precisava ser socorrido\u201d, desabafa ele.<br \/>\nTeodoro \u00e9 sobralense e h\u00e1 seis anos vive nas ruas. \u201cDepois que meus pais morreram me senti sozinho no mundo. Meus irm\u00e3os n\u00e3o me tratavam como gente. N\u00e3o me aceitavam com meus pequenos v\u00edcios, ent\u00e3o decidi morar na rua\u201d, ressalta ele que confessa fumar maconha e de vez em quando tomar cacha\u00e7a com o dinheiro que ganha em seu trabalho di\u00e1rio.<br \/>\nConseguir sobreviver na rua n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Al\u00e9m de conseguir dinheiro como flanelinha, Teodoro relata que para n\u00e3o passar fome se viu obrigado a topar o que lhe ofereciam: \u201cV\u00e1rias vezes j\u00e1 fiz programas por necessidade. Chegavam, me ofereciam vinte reais, geralmente homens, e me levavam para satisfaz\u00ea-los sexualmente. Confesso que fiz algumas vezes. Mas j\u00e1 dormiu com fome? \u00c9 uma das piores sensa\u00e7\u00f5es da vida: voc\u00ea sonha comendo alguma coisa; \u00e9 desesperador!\u201d, relata ele com os olhos cheios de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Medo<br \/>\nQuando n\u00e3o consegue dinheiro com o trabalho, Teodoro revela que come\u00e7a a pedir: \u201cAs pessoas costumam dar, outras nem ligam, pensam que a gente vai usar dinheiro para outras coisas. Mas quando eu pe\u00e7o, \u00e9 para comer!\u201d, enfatiza ele. Nos dias frios, misturado com a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar protegido, ele n\u00e3o consegue dormir; sente medo: \u201cUma vez me espantei com outro flanelinha metendo a m\u00e3o no meu bolso, tentando me roubar\u201d, lembra.<br \/>\nNo per\u00edodo de inverno, onde o frio predomina, as dificuldades aumentam para encontrar abrigo para dormir: \u201c\u00c0s vezes estamos dormindo e come\u00e7amos a tremer de frio, rapidamente pegamos resfriado. O frio assusta, mas o que causa mais terror \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que a gente \u00e9 sozinho no mundo. Eu convivo sozinho\u201d, conclui ele que fica triste quando tenta entrar em contato com a fam\u00edlia e \u00e9 ignorado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vindas de outras cidades ou filhas da mesma Sobral, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua encontram&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8512,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-8511","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-atualidade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/correiodasemana.com\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Foto-1.png","jetpack-related-posts":[{"id":17564,"url":"https:\/\/correiodasemana.com\/site\/os-flanelinhas-de-sobral-pastoradores-e-lavadores-de-carros\/","url_meta":{"origin":8511,"position":0},"title":"Os \u201cflanelinhas\u201d de Sobral \u2013 pastoradores e lavadores de carros","author":"","date":"Setembro 26, 2021","format":false,"excerpt":"O Sr. Ant\u00f4nio Dutra, casado com a Sra. 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