Lampião em Limoeiro do Norte.

Lucas Monteiro
Barbosa
seminaristalucas18@gmail.com
De todos os temas específicos que envolvem a figura de Lampião se pode, com muito esmero e detalhes, tirar uma excelente obra bibliográfica. A historiografia do cangaço lampiônico é embasada em uma literatura rica, vasta e diversificada. Além das várias biografias sobre o Rei do cangaço, abrangendo – na maioria das vezes de forma mais sucinta – os vários acontecimentos em sua vida, muitos temas específicos foram abordados minuciosamente em obras consagradas. Temas que abrangem a estética, a medicina, o ingresso das mulheres e etc. De muitos pesquisadores oriundos de cidades que foram visitadas por Lampião e seus asseclas, também se pode encontrar um rico material sobre a passagem dos famosos cangaceiros por esses municípios. É o caso da cidade de Limoeiro do Norte, no Ceará, que guarda uma história fascinante sobre o mais temido cangaceiro.
Após a malfadada investida contra Mossoró – RN, em 13 de junho de 1927, o bando de Lampião recua para as terras cearenses, onde contava com a proteção de alguns de seus mais poderosos coiteiros, tais como Isaias Arruda e Antônio de Piçarra. Derrotado e exaurido, o bando chega, no dia 14, aos territórios da cidade de Limoeiro, se arrancha nas terras de uma fazenda de propriedade de Anísio Batista dos Santos. Naquele mesmo dia, o povo de Limoeiro recebia a preocupante notícia da aproximação dos bandoleiros. Na ausência do prefeito municipal, o juiz de paz, Custódio Saraiva, recebe telegrama enviado pelo prefeito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, dando notícia do assalto malogrado do bando e a fuga em direção aos territórios de Limoeiro.
A primeira medida do juiz de paz fora telegrafar ao secretário de segurança do estado pedindo auxílio militar, o que fora rapidamente negado por resposta telegrafada. Com a ajuda de outras autoridades municipais, inclusive do vigário de Limoeiro, Custódio Saraiva exorta ao povo a debandada, de quem pudesse, para fora da cidade. Muitos cidadãos fugiram e se abrigaram na zona rural da cidade.
Lampião, arranchado cerca de trinta e cinco quilômetros da sede do município, envia Anísio Batista, cuja casa abrigava o bando, a pedir permissão para sua entrada. Algo que acalmou os ânimos dos limoeirenses, pois o Rei do cangaço intentava entrar pacífica e ordeiramente na cidade. Fora na manhã do dia 15, que Lampião, seus cabras e três reféns sequestrados em Mossoró chegaram à sede de Limoeiro. O bando fora recepcionado pelo juiz Custódio Saraiva, que lhes oferecera um farto almoço no hotel de frente à igreja matriz. Durante todo aquele dia, os cangaceiros foram a atração do povo. Jogavam moedas às crianças que a todo instante os acompanhavam, visitaram a igreja matriz e deixaram uma boa quantia em dinheiro como oferta, fizeram a barba, tiveram tratamento dentário na farmácia do Dr. Manuel Trajano, compraram tecidos e etc. Tudo pago pelos próprios cangaceiros. Em nada os bandoleiros foram um tormento para o povo. Ordens do Capitão, pois no estado do padre Cícero, Lampião era o mais ordeiro dos homens.
A passagem do bando fora registrada em duas célebres fotografias tiradas por Chico Ribeiro. A primeira fotografia fora feita com os cangaceiros recém-chegados, ainda montados a cavalos; a segunda, o bando posa juntamente com os reféns. Ambos os registros foram tirados na praça da Independência, de frente à farmácia de Dr. Manuel Trajano. Ao fim da tarde, chega à estação de telégrafo o telegrama dando a informação que um grande contingente de soldados, liderado pelo major Moisés Figueiredo, avança a Limoeiro no encalço dos cangaceiros. Para evitar que a cidade se tornasse um palco de guerra, Custódio Saraiva pede ao Capitão que se retirasse com seu bando, o que fora prontamente atendido pelo Rei do cangaço.
Limoeiro do Norte é uma das várias cidades nordestinas que guardam histórias marcantes e importantes para a historiografia de Lampião e, consequentemente, do Nordeste brasileiro. Embora em poucas horas de permanência do bando, a cidade cearense é uma das testemunhas da força de Lampião que reverberava, àquelas alturas, em todo o Brasil.



