A realidade da moradia no Brasil
Dando continuidade às reflexões sobre a Campanha da Fraternidade (CF) 2026, cujo tema é “Fraternidade e Moradia”, queremos voltar o olhar para a realidade da moradia em nosso país. A partir do que a Igreja busca refletir, entendemos que o direito à moradia digna ainda não foi garantido a uma parcela considerável de nossa população. A CF denuncia que o Artigo 6° da Constituição Federal permanece inacessível para muitos.
Olhando para a nossa realidade, vivemos em um país cada vez mais urbano. Os problemas habitacionais estão atrelados ao inchaço das nossas cidades, o que fez com que as populações mais pobres fiquem privadas de seus direitos básicos. A maior parte da população brasileira não tem renda suficiente para comprar sua moradia e nem é atendida pelas políticas públicas de habitação.
Sendo a moradia uma mercadoria inacessível, o que sobra para os pobres, muitas vezes, são as áreas de risco, os morros, as margens dos rios. A prova disso é que as maiores vítimas das enchentes e dos deslizamentos de terra são as famílias empobrecidas. Além dos problemas atuais, a falta de moradia é fruto de uma história fundiária marcada pela desigualdade no acesso à terra. Os problemas habitacionais perpetuam o modelo de exclusão social.
Os números são impactantes e revelam a atualidade do tema da CF. No Brasil, mais de 6 milhões de famílias não têm casa própria. Outras 26 milhões vivem em moradias inadequadas, ou seja, em áreas de risco, sem infraestrutura, sem acesso a equipamentos públicos. Um exemplo referente à falta de infraestrutura é que mais de 360 mil domicílios de nosso país não têm banheiro, que deveria ser um item básico de todas as casas.
A população em situação de rua e a população nas favelas só fazem aumentar a cada dia. Temos, atualmente, mais de 12 mil favelas no país, onde vivem 16,4 milhões de brasileiros (8% da população). É o empreendimento imobiliário que mais cresce no Brasil. Infelizmente, são lugares onde o acesso à saúde, cultura, educação e lazer é mais precário, e onde a criminalidade se torna mais influente.
A “desigualdade socioterritorial” tem marcado negativamente as cidades brasileiras. A geografia das cidades apenas reproduz a desigualdade socioeconômica. Realmente, os que estão nas “margens” da cidade, ou seja, nas periferias são aqueles que estão à margem dos bens da cidade. A CF denuncia que a cidade não é para todos.
Nesse sentido, falar de moradia não significa falar simplesmente de casas para o povo morar. Significa falar de uma série de bens e serviços essenciais à população. Mais do que uma mercadoria, um objeto de especulação ou de mérito pessoal, moradia digna é um direito sagrado. Por isso, nesta CF, a Igreja impulsiona iniciativas pastorais, governamentais e dos movimentos populares para promover moradia digna para todos os nossos irmãos sem-teto e sem lar.

