O stabat da esperança: reflexões sobre o setenário das dores 

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dom vasconcelos nispo de sobral

A liturgia da Igreja reserva-nos, no último sábado, dia vinte e um de março, o pórtico de entrada para uma das vivências mais profundas e tocantes da piedade cristã. Iniciamos a Semana das Dores, este setenário de recolhimento que antecede a entrada triunfal em Jerusalém, fixando o olhar não apenas no sofrimento em si, mas na fidelidade absoluta e inabalável de Maria. Enquanto o mundo contemporâneo muitas vezes foge do desconforto e busca paliativos superficiais para a angústia, a Igreja propõe o exercício inverso da contemplação e da presença. Olhamos para a Mãe de Jesus para aprender a difícil arte de permanecer. A dor possui uma linguagem própria, um idioma universal que todos compreendemos em algum momento da existência, mas que raramente sabemos articular com a gramática da esperança. Maria articula esse idioma através de seu silêncio operante e de sua postura firme diante do mistério. Desde o instante em que ouviu de Simeão a profecia sobre a espada que transpassaria sua alma, Ela compreendeu que sua missão exigiria uma entrega total e um coração permanentemente aberto aos desígnios do Pai.
A jornada de Maria representa a jornada de cada fiel que enfrenta a incerteza, a perseguição e a perda nas encruzilhadas da vida. Quando meditamos sobre a fuga para o Egito, encontramos a imagem viva das famílias contemporâneas que abandonam seus lares sob o peso sufocante do medo, da guerra, das incertezas urbanas ou da carência extrema. Maria não experimentou uma dor teórica, abstrata ou distante; ela sentiu o frio cortante da noite no deserto, a poeira sufocante da estrada e a insegurança paralisante do estrangeiro sem teto. Esta realidade histórica conecta o mistério da fé com as calçadas das nossas cidades brasileiras, onde tantos filhos e filhas de Deus ainda buscam desesperadamente um lugar de repouso, justiça e dignidade. A dor da perda do Menino Jesus no Templo, por sua vez, espelha a angústia lancinante dos pais que hoje veem seus jovens perdidos em caminhos tortuosos, onde a ausência de sentido e o niilismo consomem o vigor da juventude. Maria ensina que a busca exige paciência heroica, oração incessante e uma confiança inabalável na providência que guia os passos humanos, mesmo quando o horizonte aparece completamente obscurecido pela neblina da dúvida ou do desespero.
Ao percorrermos o caminho do Calvário neste ano de dois mil e vinte e seis, encontramos o ápice desta teologia da compaixão que a Igreja nos convida a viver. O encontro de Jesus com sua Mãe na via dolorosa define o significado profundo do discipulado cristão. Ali, as palavras tornam-se desnecessárias e pequenas, pois o simples encontro de olhares comunica a aceitação mútua do sacrifício por um bem infinitamente maior. Maria não tenta impedir o Filho de cumprir sua missão salvífica, nem se rebela com amargura contra a injustiça flagrante do tribunal humano ou a crueldade dos carrascos. Ela sustenta o Filho com sua mera presença física e espiritual. Esta força feminina, que sustenta as famílias e as comunidades em tempos de crise sistêmica, revela o rosto mais belo e acolhedor da Igreja: aquele que não abandona o sofredor na hora derradeira da agonia. A morte de Jesus e o momento subsequente em que Maria o recebe nos braços, descido da cruz e desfigurado pela violência, encerram o ciclo da dor terrena para abrir, de par em par, a porta da eternidade. A imagem da Pietà resume a história de toda a humanidade caída que encontra amparo, consolo e novo fôlego no colo da Mãe Igreja.
A Semana das Dores serve também como um espelho cristalino para a nossa própria fragilidade humana e institucional. Reconhecemos, com humildade, que não possuímos todas as respostas para os dilemas éticos e sociais do nosso tempo e que, muitas vezes, o peso da existência parece esmagador e insuportável. Contudo, a liturgia recorda-nos com doçura que Maria assume o título de Consoladora dos Aflitos. Ela possui autoridade para consolar porque conheceu a aflição em sua forma mais crua, visceral e injusta. Ao acolhermos as dores de Maria em nosso próprio coração pastoral, permitimos que Ela nos ensine a transformar o pranto amargo em semente de ressurreição gloriosa. A Semana Santa que se avizinha com o Domingo de Ramos exige de nós este despojamento interior completo. Não existe o triunfo do sepulcro vazio sem a passagem necessária pelo calvário e pelo silêncio do sábado. Maria guia nossos passos nesta transição difícil, garantindo que o cansaço natural da caminhada não nos impeça de enxergar a luz da aurora que já desponta no horizonte da fé.
Concluímos este setenário sagrado com a certeza absoluta de que a última palavra da história não pertence à morte, nem à dor, nem ao pecado, mas sim à vida em plenitude. As sete dores de Maria formam um arco teológico e existencial que culmina na esperança radiante da manhã de Páscoa, no dia cinco de abril. Que cada celebração em nossas paróquias, cada procissão do encontro e cada oração do terço nestes dias ajudem o povo de Deus a redescobrir o valor santificador do sacrifício e a beleza da fidelidade que não retrocede diante das dificuldades. Que Nossa Senhora das Dores, sob cujos mantos colocamos nossas aflições, interceda por nossa cidade de São Sebastião, por nossas famílias e, especialmente, pelos enfermos e encarcerados que hoje se encontram no ápice de sua própria dor solitária. Que eles encontrem em cada cristão um reflexo do olhar de Maria: um olhar que não julga, mas que acolhe, permanece e ama até o fim. Que a fé nos sustente e o amor nos impulsione, para que caminhemos unidos, como uma Igreja sinodal e missionária, neste ano jubilar arquidiocesano, rumo à alegria que não tem fim, sob a proteção constante d’Aquela que tudo guardou e meditou em seu coração imaculado.
Cardeal Orani João Tempesta – Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

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