DISCURSO DE SAUDAÇÃO A DOM MAGNUS HENRIQUE LOPES NA CADEIRA Nº 8 DA ACADEMIA BRASILEIRA DE HAGIOLOGIA
Excelentíssimo Sr. Reverendíssimo Dom André Alves dos Santos, Presidente da ABRHAGI;
Excelentíssimo e Reverendíssimo Sr. Dom Magnus Henrique Lopes, Bispo do Crato e muito digno recipiendário;
Confrades, Senhoras e Senhores,
É com o coração transbordante de emoção, mas revestido do mais profundo sentido de dever acadêmico, que desempenho a missão a mim confiada por nosso Presidente.
Hoje, a Academia Brasileira de Hagiologia vive um momento de autêntica epifania. Não estamos apenas cumprindo um rito de posse; estamos selando um encontro histórico ao acolher, na Cadeira nº 8, um Acadêmico que personifica a união entre a Hagiologia, a caridade pastoral e a sensibilidade humana — e que o fazemos, simbolicamente, neste local sagrado.
A chegada de Dom Magnus Henrique Lopes a este Sodalício toca-me de forma particular. Sua trajetória é um testemunho de entrega: desde o despertar vocacional no Rio Grande do Norte e a caminhada na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, até sua sagração episcopal. Dom Magnus trouxe de sua formação em Filosofia, Teologia e Psicologia as ferramentas para compreender a alma humana; mas foi no sertão — primeiro como Bispo de Salgueiro e, agora, como Bispo do Crato — que ele se tornou o guardião dos anseios de um povo que respira santidade, revelando-se, também, um poeta nato.
Não é por acaso que, ao celebrarmos os oito séculos do encontro definitivo de São Francisco com o Altíssimo, acolhemos um de seus filhos queridos entre nós. O espírito franciscano, que abraça o pequeno e o pobre, encontra eco perfeito na alma do nosso Cariri. O mesmo “Trânsito” que levou Francisco ao céu há 800 anos parece, hoje, conduzir Dom Magnus a esta Arcádia, unindo o Tau de Assis ao cajado do Padre Cícero.
Como esquecer sua oratória por ocasião da beatificação de Benigna Cardoso? Com a delicadeza de quem maneja as coisas do Alto, Vossa Excelência Reverendíssima convidou-nos a contemplar nossa santinha com seu vestido vermelho de bolinhas brancas — sinal de martírio e pureza — e presenteou-nos com uma frase gravada na alma do povo: “Temos uma Beata no céu vestida de chita”. Naquela fala, não ouvimos apenas o Bispo, mas o poeta que enxerga a santidade no cotidiano.
Sua eleição segue uma tradição de alto prestígio. As Academias zelam pela “linhagem” de suas cadeiras, e a nossa Cadeira nº 8 exige conexão vital com seu patrono: o Padre Cícero Romão Batista. Dom Magnus não ocupa este assento por mero protocolo, mas por fundamentos que se impõem:
O Vínculo do Pastor: Como Bispo da Diocese do Crato, é o sucessor na guarda e promoção do legado do Padre Cícero.
O Protagonismo da Fé: Foi Vossa Excelência quem, com coragem histórica, requereu ao Santo Padre a abertura da Causa de beatificação de nosso Patrono — gesto que ecoará na História e que hoje conta com o zelo do Dr. Paolo Vilotta, Postulador da Causa e eminente Sócio Honorário desta Casa.
A Expertise Técnica: Sua atuação na Comissão para a Causa dos Santos da CNBB traz a esta Casa uma autoridade que nos guia.
A Cadeira nº 8 guarda memórias de profunda reverência. Por ocasião da fundação desta Academia, seu predecessor, Dom Fernando Panico, e o inesquecível Monsenhor Murilo de Sá Barreto, foram eleitos sócios honorários e receberam tal distinção de minhas mãos, em Juazeiro do Norte. Recordo, ainda, com saudade, o primeiro ocupante desta cadeira, o Prof. Dr. José Teodoro Soares, reitor que abriu as portas do mundo acadêmico aos fenômenos de Juazeiro. Dom Magnus, Vossa Excelência Reverendíssima herda o legado desses homens que desbravaram os caminhos que hoje percorremos.
Invade-me um profundo sentimento de gratidão ao recordar o ano de 2004. Naquela época, ao redigir o primeiro estatuto desta Academia, estabeleci com cautela as condições para que o Padre Cícero figurasse como patrono, visto que ele ainda não era oficialmente “Servo de Deus”. Ver Dom Magnus — o Bispo que deu o passo definitivo para essa reparação — assumir este lugar, traz-me a sensação de dever cumprido.
Sua posse é um ato de reconhecimento revestido de gratidão. Gratidão de nós, hagiólogos, pelos seus feitos incansáveis; e de nós, romeiros, que vemos em Vossa Excelência o Pastor que validou a fé que carregamos no peito — desde os que conheceram meu Padim até as gerações de hoje. Aqui destaco também os que participamos do inquérito diocesano da Causa de Beatificação e de Canonização do Padre Cícero, especialmente os que compusemos a Comissão Histórica, presentes neste momento tão importante.
Há, ainda, um simbolismo geográfico-sagrado nesta tarde. Segundo a tradição, o Padre Cícero nasceu aqui próximo, onde hoje se ergue esta Cúria Diocesana. E essa realidade se faz epifania: a posse de um Acadêmico na casa onde o Patrono nasceu simboliza um retorno à própria morada. Como disse Adélia Prado: “A memória é o lugar onde o tempo faz corpo”. Ao empossá-lo aqui, Dom Magnus, nós da Academia Brasileira de Hagiologia, trazemos o Patrono de volta ao seu berço pelas mãos de seu mais zeloso Defensor, Vossa Excelência Reverendíssima, o Bispo do Padre Cícero!
Dom Magnus, vossa chegada à ABRHAGI é um marco. O senhor não apenas estuda os santos; o senhor os apresenta e nos aproxima do Altíssimo e, consequentemente, deles. Vossa Excelência Reverendíssima trabalha para que a santidade deixe de ser apenas tradição oral para tornar-se glória documentada.
Seja bem-vindo à Academia Brasileira de Hagiologia, Acadêmico Dom Magnus Henrique Lopes. Sinto, com a fé inabalável de um romeiro e devoto do Padre Cícero que sou — vossa ovelha nesta jornada, portanto —, que nosso “Padim” sorri alegremente ao ver seu Bispo assumir esta cadeira que imortaliza seu nome, dando sua anuência, em abraço eterno com sua Terra, seu Bispo e sua Igreja, à qual foi tão fiel e obediente.
Muito obrigado a todos, Viva Dom Magnus e Viva Meu Padim!
Crato, 29 de abril de 2026
José Luís Araújo Lira

