DISCURSO POR OCASIÃO DE POSSE DE DOM MAGNUS HENRIQUE LOPES, OFMCap., NA CADEIRA Nº 08 DA ACADEMIA BRASILEIRA DE HAGIOLOGIA.
Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia Brasileira de Hagiologia, Dom André Alves dos Santos, OSB, prezados confrades da academia, Caríssimo Dr. José Luíz Araújo Lira, caros filhos Padres e seminaristas, distintos membros da mesa, irmãos e irmãs em Cristo, Paz e Bem!
Hoje, ao adentrar este recinto sagrado para a fé e para a razão, não o faço apenas movido pelo protocolo ou pela honraria acadêmica. Venho, antes, movido pela gratuidade deste momento, que reconheço não me pertencer por mérito, mas por benevolência dos irmãos. Se algo aqui me cabe, é inclinar-me — com reverência, simplicidade e profunda gratidão — diante da memória do patrono que me acolhe nesta Cadeira nº 8: o Padre Cícero Romão Batista, Servo de Deus, cuja vida permanece como chama viva na alma do povo.
Ao receber este encargo, sinto sobre os ombros não o peso de uma distinção, mas o símbolo de uma herança: a batina surrada, marcada pela poeira das dores de tantos irmãos, pelas lágrimas dos aflitos e pelas esperanças daqueles que batiam à sua porta em busca de consolação. Padre Cícero não buscou títulos — buscou almas. Não escreveu tratados em bibliotecas silenciosas — escreveu o Evangelho, com eloquência e ternura, no coração do povo nordestino.
Ao assumir hoje uma cadeira na Academia Brasileira de Hagiologia, não acolho como honra meramente intelectual, fruto da erudição. Recordo, antes, a essência desta instituição, que se propõe a contemplar e iluminar o “rosto mais belo da Igreja”: a santidade. E a santidade — sabemos — raramente se impõe com barulho. Ela floresce, muitas vezes, no silêncio do cotidiano, no anonimato fecundo da existência humana. É no altar escondido do coração que Deus realiza suas obras mais sublimes. Por isso, somos chamados à arte do discernimento: reconhecer, nas dobras da história, o sopro discreto do Espírito Santo que conduz o povo de Deus ao Pai. A santidade transita no anonimato da sociedade e na vida de muitos irmãos. Hoje sabemos que muitos santos estão nos altares dos corações e conseguem ser eloquentes exalando o odor de santidade.
Esta Academia, portanto, não se debruça sobre heróis mitológicos ou figuras que alcançaram os tronos pelas armas. Esta academia reza a graça de Deus em vasos de barro. Estudamos a possibilidade real de o divino irromper no ordinário.
Sentar-me na cadeira que tem como patrono o servo de Deus, o Padre Cícero Romão Batista é assumir a grave tarefa de honrar o seu nome e a sua história. O Servo de Deus, à luz da Doutrina Social da Igreja, muito antes de ela ser sistematizada como a conhecemos hoje, compreendeu que não há verdadeira evangelização que não toque a carne ferida da realidade humana. A caridade proativa marcou seus passos. Em Juazeiro do Norte, ele não ergueu apenas uma igreja de tijolos; ele ergueu a dignidade humana onde só havia abandono. Fez do conselho e do trabalho a via de salvação para os “desvalidos da sorte”.
Hoje, o valor de ocupar a cadeira que leva seu nome está justamente em proclamar, deste púlpito acadêmico, que ele nos ensina que santo é aquele que, apesar das dores e injustiças, nunca desiste. O santo é aquele que, mesmo em meio às incompreensões e aos silêncios, jamais deixa de amar a Igreja e de servir ao seu rebanho. Padre Cícero é o ícone do Bom Pastor que não foge quando vê o lobo da miséria e da ignorância se aproximar.
O Padre da batina surrada e marcada pelas dobras das dores, assumiu a paternidade do Bom Pastor para com os que dele se achegavam como órfãos do mundo, esquecidos e entregues à aspereza da seca, da fome e do abandono miserável. Fez-se pai, amigo, irmão, pastor e padrinho com o coração movido pela misericórdia do Senhor. Se hoje ocupamos uma cadeira nesta Academia, cujo nome ele dignifica, é necessário recordar: ela não é apenas símbolo de erudição, mas sinal de responsabilidade. É lugar de escuta, de acolhimento e de serviço.
Padre Cícero, em sua simplicidade grandiosa, oferecia cadeiras àqueles que chegavam cansados e abatidos; não apenas como gesto físico, mas como expressão de amparo, dignidade e escuta. Sua cadeira era abrigo, era pausa, era consolo. Era, sobretudo, um convite silencioso à esperança. Foi incansável defensor dos filhos e filhas prediletos de Deus, que o procuravam em suas aflições, gemendo e chorando no vale de lágrimas das veredas do duro sertão nordestino. Conduzia todos a encontrarem alívio, consolação e fortaleza, nas doces e fartas torrentes dos sacramentos. Restaurava-lhes com o óleo da caridade, a dignidade perdida indicando-lhes, como bom pastor, o caminho do trabalho e da oração como fonte de uma vida digna de filhos e filhas de Deus. E, se não havia cadeira, oferecia um tamborete — como bom nordestino — mas nunca deixava alguém desamparado na grande academia da vida, onde tantos caminham, exaustos, em busca de sentido e de esperança. Concluo suplicando a intercessão do seráfico pai São Francisco de Assis, para que rogue a Deus por mim, a fim de que jamais a soberba do saber obscureça a caridade do coração. E que Nossa Senhora da Penha, Padroeira de nossa Diocese, nos conduza, com ternura materna, pelos caminhos da fidelidade.
Crato-CE, 29 de abril de 2026
Dom Magnus Henrique Lopes, OFMCap.
Bispo do Crato

