Ary Albuquerque
O DELEGADO QUE VIROU PLANTADOR DE BANANAS
André Fatiotti, eventualmente, substituía o delegado chefe. Assinava os despachos sem ler. Detestava burocracia. Possuía aversão a leitura. Lia somente os jornais o noticiário policial.
Jeito dele. Seu forte, entretanto, era trabalhar em campo de desvendar crimes intrigantes, roubos misteriosos e casos extremamente complexos. Seu apelido Sherlock Homes fazia-lhe merecimento. Parecia com o personagem e fumava cachimbo. Além do mais possuía raciocínio ágil, espírito perquiridor, inteligência aguçada e olhar de lince. Cai-lhe bem o cognome. A delegacia localizava-se numa praça arborizada, prédio antigo, cinco andares, tendo como vizinhos dois outros sobrados, também, antigos. O da esquerda tinha na frente uma porta larga contendo uma portinhola com uma aldabra acima em vez de campainha. O edifício só possuía movimento a noite. Era um entrar e sair gente usando capas pretas e enormes volumes bem enrolados parecendo armas. O movimento ia das vinte horas até madrugada. Fatiotti já desconfiara e várias vezes ficara a espreitar o movimento do edifício de um ponto estratégico da delegacia. Não tinha dúvidas, tratava-se, com certeza absoluta de uma Célula Comunista! Sabiamente montada vizinho a delegacia para não haver nenhuma desconfiança. Mas, a ele Fatiotti Comunista nenhum engana. Notou que aos sábados o movimento aumentava. Resolveu ir lá pessoalmente. Paramentou-se igual aos frequentadores e foi. Chegando no prédio entrou na fila. Notou um possuía um código de entrada. O da sua frente quando chegou à entrada bateu com aldabra na porta. A portinhola se abriu e saiu uma voz rouca de dentro: senha.
Aí, ele falou: CFEP-AC
Ao que voz respondeu: entra. O próximo.
Era a vez de Fatiotti. Ele, como não tinha senha, chutou a próxima, certo de dava certo: CFEP – AD.
A voz respondeu:
– Senha falsa. O seguinte, por favor.
A fila estava grande, Fatiotti não insistiu com medo da reação dos COMUNISTAS, no entender dele.
Na imaginação do delegado estava mais que provado que se tratava de um “aparelho comunista “.
Encontrou até tradução para a sigla da senha, CFEP-Cédula Federal Emancipação Política.
Não há mais o que provar. Só um Mandado Judicial e forças policiais para estourar o “ aparelho”.
Conseguiu o que desejava com o Delegado Geral. Fez uma apostila explicando os mínimos detalhes de como seria a operação. Reuniu a tropa e detalhou o “ Modus Operandi “. Fez, conjuntamente, com os policiais um reconhecimento de campo. Marcou para o próximo sábado, a meia noite, a invasão.
Na noite e hora aprazada Fatiotti e seus homens encontravam-se a porta do velho edifício. Sentia-se como um rei comandando aquela operação. Já imaginava as manchetes dos jornais no outro dia: “ DESBARATADA MAIS UMA CELULA COMUNISTA GRAÇAS A INTERVENÇÃO SÁBIA DO DELEGADO FATIOTTI “.
“ FATIOTTI O SHERLOCK HOLMES DA POLICIA BRASILEIRA, ESTOUROU MAIS UM APARELHO COMUNISTA”. Bateu a aldabra com força três vezes. A portinhola abriu. Lá de dentro partiu uma voz rouca: Senha, por favor. Que senha que nada! É a polícia, abra a porta, senão, arrombaremos! Houve um ruído de vozes abafadas. Fatiotti e outros dois fortes policiais meteram os pés na porta e arrombaram. Um estalido seco de madeira velha encheu a madrugada fria.
O delegado agiu rápido e o grupo em posição
estratégica de armas em punho, tomou posição. O que presenciaram: cem pessoas, mais ou menos, fantasiadas à caráter estavam sentadas em volta de um palco improvisado. No centro um microfone e nele cantava uma figura magra um rock imitando Elvis Presley.
Uma pequena banda o acompanhava. Com a chegada da polícia houve um atropelo geral. Parou tudo.
– Quem for o chefe apresente-se, berrou Fatiotti. E, continuou: estão todos presos em nome da lei.
De repente sai do meio da multidão uma figura raquítica, voz rouca, caxigando duma perna, aparentando sessenta anos, e, fala:
-Eu me chamo Calixto e sou o dono do Clube.
E, dirigindo- se, com humildade, antes da admoestação de Fatiotti, expressou-se:
-Excelência, mantenho aqui um fã clube de Elvis Presley. Chama-se: CLUBE FÃS DE ELVIS PRESLEY- CFEP. Treino candidatos para programas de rádio e televisão.
– Mostre- me o alvará de funcionamento expedido pela polícia.
Tensão e expectativa. Daí, a dez minutos o Calixto, trouxe um documento antigo e, trêmulo entregou a Fatiotti. Esse tirou uma lanterna do cós e fitou o documento. Conhecia sobejamente esse tipo de licença.
Empalideceu. Sentiu-se mal. Só não foi ao chão porque o seguraram. Quase não acreditou no que viu. A licença estava assinada ele próprio. Letra firme. Inconfundível.
Devolveu o documento ao cidadão e deu ordem de encerramento da operação. Cabisbaixos saíram todos, inclusive, Fatiotti, o herói destronado.
No dia seguinte, mal cumprimentou os colegas. Foi direto à sala de trabalho. Sentou-se à máquina e redigiu seu requerimento de aposentadoria.
Perguntado que ia fazer dagora por diante, foi categórico:
– VOU PLANTAR BANANAS NO MEU SITIO…

