Herculano Costa

Muito se tem discutido sobre as mudanças nas relações entre pais e filhos na comparação do Ontem com o Hoje.
A família mudou — e isso já não é novidade. O que talvez ainda cause estranhamento é a velocidade e a profundidade dessas mudanças, sobretudo quando se observa a relação entre pais e filhos. Mas, isso revela não uma crise, mas uma transformação do modo de educar. Entre a segunda metade do século XX e os dias atuais, o que se vê não é o desaparecimento da família, mas a sua reinvenção.
Num passado recente, predominava um modelo familiar estruturado sob bases mais rígidas. A autoridade concentrava-se, em geral, na figura paterna, enquanto à mãe cabia a condução do cotidiano doméstico e o cuidado direto do zelo com os filhos. Havia clareza de papéis, convivência constante e uma educação fortemente orientada pela disciplina e pelo respeito hierárquico. Nesse ambiente, os vínculos familiares eram moldados pela presença contínua e pela transmissão de valores que se repetiam, de geração em geração. Embora houvesse limitações — como menor abertura ao diálogo —, existia uma forte sensação de pertencimento e estabilidade.
Hoje, o cenário é outro. A família contemporânea apresenta múltiplas configurações e se organiza de forma mais flexível. Pai e mãe compartilham responsabilidades, os filhos são incentivados a expressar suas opiniões, e o diálogo passou a ocupar um espaço antes inexistente. A autoridade não desapareceu, mas se transformou: tornou-se mais negociada, mais construída do que imposta.
Entretanto, essa nova dinâmica traz consigo desafios significativos. A vida moderna, marcada por agendas intensas e pela constante mediação da tecnologia, reduziu o tempo de convivência direta. Pais e filhos, muitas vezes, vivem sob o mesmo teto, mas em universos distintos. Nunca se esteve tão conectado — e, paradoxalmente, tão distante.
A presença física já não garante proximidade afetiva. O cotidiano fragmentado exige um esforço consciente, para que o convívio familiar não se dilua, em meio às demandas externas. Nesse contexto, o que está em jogo não é apenas o tempo disponível, mas a qualidade desse tempo.
É preciso reconhecer que a transformação da família acompanha mudanças mais amplas da sociedade. A inserção da mulher no mercado de trabalho, a urbanização, o avanço tecnológico e a valorização da individualidade contribuíram para a redefinição dos papéis familiares. Não se trata, portanto, de um problema isolado, mas de um reflexo do tempo em que vivemos. Diante disso, a tentação de comparar passado e presente sob uma ótica de perda pode ser simplista. O modelo antigo oferecia estabilidade, mas limitava o diálogo. O modelo atual amplia a escuta, mas enfrenta o risco da dispersão e da ausência de limites claros. O desafio contemporâneo está, justamente, em equilibrar essas dimensões.
Educar filhos, hoje, exige mais do que autoridade ou afeto, isoladamente. Exige presença intencional, capacidade de escuta e firmeza na construção de valores. A família passa a ser um espaço de formação compartilhada, no qual, pais e filhos aprendem juntos, em meio às complexidades do mundo atual. Se antes bastava estar presente, hoje é preciso estar inteiro.
Mais do que resgatar modelos do passado ou aderir sem crítica às práticas do presente, cabe à família encontrar um caminho próprio — que una a solidez dos valores tradicionais com a abertura ao diálogo e à compreensão das novas realidades.
Afinal, a essência permanece: é no seio da família que se formam não apenas indivíduos, mas cidadãos. E, apesar de todas as mudanças, essa responsabilidade continua sendo insubstituível.
Por Herculano Costa (*) – Jornalista – Reg. ACI N° 1.216, Professor, Escritor e Poeta
(*) – Neuropsicanalista Clínico – Reg. CNP N° 09/4.159

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