O adeus de Sobral ao Café Jaibaras

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casal prefeitos de becco do cotovelo sobral

Há cidades que se explicam por seus monumentos. Sobral é assim! Outras, porém, revelam sua alma nos pequenos espaços onde a vida acontece. Sobral, também é esse lugar. Aqui, esse lugar sempre teve nome certo: o Café Jaibaras, incrustado no lendário Becco do Cotovelo, o famoso Elbow Street.
Lamentável e surpreendentemente, no fim da semana passada, circulava notícia dando conta de que o cheio de charme Café Jaibaras iria, em breve, fechar suas portas! Ressalte-se que, o lugar que vai cessar suas atividades no Becco não é apenas e tão somente um “Café” que vai fechar — outros já o fizeram – é, isto sim, um pedaço da memória coletiva de Sobral que se recolhe, que se fecha, que se apaga, assim como quem apaga a luz de uma sala, onde tantas histórias foram contadas e ouvidas. Onde tantas observações do cotidiano da cidade foram sentidas e discutidas em prol de benefícios comuns a favor da comunidade sobralense.
Desde 1953, quando Vicente Aragão Prado vendeu ali suas primeiras xícaras de café e ouviu as primeiras conversas, presenciou os primeiros diálogos de seus frequentadores, o Café Jaibaras foi virando espaço um democrático. Aos poucos foi deixando de ser apenas um ponto de venda de café para se tornar um território de ideias. Entre goles apressados e demoradas prosas, ali se abasteciam de cultura, os ricos e, também, as pessoas pobres da cidade.
Em 1978, 25 anos depois, Expedito Vasconcelos, à época gerente de uma tradicional farmácia da cidade, adquiriu os direitos de propriedade do “Café”, ao comprá-lo do Sr. Vicente Aragão Prado que, naquele ano, foi morar no Estado do Acre, onde se estabeleceu em outro ramo comercial.
Dali em diante, sob a condução afetuosa e acolhedora de Expedito Vasconcelos — o carismático “Prefeito do Beco” — e da lhaneza de Lourdinha Vasconcelos, sua esposa, o Café Jaibaras foi crescendo, progredindo e resistindo, por 48 anos, como um bastião da boa convivência de seus frequentadores. Para Expedito e Lourdinha o “Café” não era apenas um negócio: era um gesto cotidiano de acolhimento a todos!
O Becco, com sua geometria quase íntima, sempre foi mais que uma passagem de transeuntes: era destino em Sobral. E o Café Jaibaras, seu coração pulsante. Havia uma espécie de liturgia silenciosa em quem chegava — olhar em volta, reconhecer rostos, puxar conversas. Não importava a hora: sempre havia uma história em curso. Passou a ser um local de efervescência cultural e intelectual. Ponto de encontro e reunião de artistas, escritores, poetas, pensadores e sonhadores. Lugar de visitação quase que obrigatória, de autoridades e políticos, fazendo do Café Jaibaras não apenas um café, mas um verdadeiro fórum da vida sobralense. Ali, discutiu-se o mundo e, sobretudo, o mundo de Sobral. “Vir a Sobral e não passar pelo Café Jaibaras no Becco é como ir à Roma e não se avistar com o Papa”, diziam alguns.
Nos últimos tempos, transformado em Café Museu, o espaço assume conscientemente sua vocação de guardião da cultura. Nas suas paredes, fotografias de políticos e religiosos; em seus flanelógrafos, informações e recortes de jornais; até um par de óculos de grau para os desprovidos de boa visão ali existe; nas páginas do Livro de Tombo, nomes, assinaturas e lembranças; no ar, a persistência de um tempo que se recusava a desaparecer.
Mas o tempo, que tudo transforma, também pede pausas. E agora, diante do fechamento do Café Jaibaras, fica em Sobral um silêncio novo — daqueles que não se medem pela ausência de ruído, mas pela falta da presença do simbólico e emblemático.
Porque há lugares que não se substituem. Podem até mudar de nome, de dono, de função. Mas o que ali aconteceu — encontros, risos, debates, afetos — isso permanece, invisível e indelével, na memória de quem tudo isso viveu.
O Café Jaibaras fecha suas portas. Encerra suas atividades. O Becco do Cotovelo continua. Mas algo, – aquele algo mais do Elbow Street – definitivamente, já não será o mesmo.
Por Herculano Costa – Jornalista Reg. ACI N° 1.216 – hercoscosta@gmail.com

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