O Que é Utopia e Distopia
“Thomas More foi o criador do neologismo “utopia” em 1516. Para criá-lo, o pensador fez um jogo com palavras gregas a fim de formar uma palavra que desse conta de descrever um lugar ideal. Sendo assim, ele juntou:
Ou-topos (οὐ τόπος) — não lugar, ou lugar nenhum.
Eu-topos (εὖ τόπος) — bom lugar, traduzido como lugar ideal.
Ambas as possíveis origens da palavra dão conta daquilo que Thomas More quis representar: um lugar ideal, tão ideal que é inexistente, ou, simplesmente, um lugar tão bom, que é ideal.
O que é viver uma utopia?
Os significados da frase “viver uma utopia” podem ser variados, mas, comumente, associamos essa frase a algo equivalente a viver um sonho. Viver uma utopia seria viver algo que se descola da realidade, algo distante do mundo real (material). Podemos associar o termo, de forma anacrônica, a Platão, que descreveu o Mundo das Ideias.
Na teoria do conhecimento plantonista, tudo o que existia enquanto ideia era eterno, perfeito e imutável, enquanto tudo o que existia materialmente era imperfeito, mutável e perecível.
Pela origem e significado do termo, viver uma utopia é algo impossível à nossa existência terrena, material e limitada. No entanto, a palavra adquire um significado metafórico para simbolizar uma vida que queremos, que almejamos, que desejamos por considerá-la perfeita.
Diferenças entre utopia e distopia
Parte da literatura produzida no século XX nos dá um bom contraponto para a palavra utopia: a literatura distópica, ou a distopia. A distopia foi uma forma de produção literária oposta à ideia de utopia.
Por conta de acumulados de eventos do século XIX, como a ascensão do antissemitismo na Europa, um pensamento extremamente cientificista e positivista, e o surgimento de filosofias não racionalistas, como o existencialismo; e do século XX, como a I e II Guerra Mundial e, principalmente, a ascensão de governos totalitários, tivemos, como reação, a escrita de livros que contrapõem o que seria uma utopia.
A ideia de bem comum, que já aparecia desde a filosofia política de Aristóteles, foi usurpada por líderes totalitários para criar uma estratégia de dominação das massas. O problema foi quando isso se tornou uma distopia e a ideia de bem comum foi utilizada para uniformizar e dominar pelo terror, como nos regimes totalitários.
Para os humanistas renascentistas e iluministas, racional é aquilo que leva ao bem comum, o que faz muito sentido, como a ideia de paz perpétua de Kant. No entanto, podemos pegar como exemplo livros de literatura distópica nos quais a ideia de bem comum é utilizada para dominar:
Em Nós, de Evgeni Zamiátin e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o bem comum racional foi utilizado para padronizar a todos e impedir o contraditório, o pensamento diferente.
Em 1984 e Revolução dos Bichos, de George Orwell, o bem comum racional se apresenta como ferramenta de união da massa contra o inimigo comum. Em Farenheit 451, de Ray Bradburry, e O conto da Aia, de Margaret Atwood, a ideia de bem comum racional apresenta-se como ferramenta de manipulação para tornar a sociedade acrítica, eliminando completamente a leitura dos cidadãos.
Em Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, a violência tomou conta de uma sociedade com valores morais pervertidos. E, no fim, todas as características levantadas para cada uma das obras distópicas podem ser encontradas nas outras obras.
Enquanto a utopia é algo tão surreal que dá vontade de vivê-la, a distopia é algo tão real (no sentido do realismo literário, que procura na visceralidade de uma humanidade doente algum significado) que ninguém a quer para si.”
(https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/utopia.htm).
Prof. Salmito Campos – (jornalista e radialista).

