Herculano Costa

“Há silêncios que confortam. Mas há silêncios que machucam. O mais doloroso deles é aquele que envolve quem ainda tem tanto a dizer, mas já não encontra quem o escute.”
Quando pensamos nos desafios da velhice, quase sempre nos vêm à mente as doenças, as limitações físicas ou a necessidade de cuidados médicos. Pouco se fala, entretanto, de uma enfermidade invisível que cresce silenciosamente e compromete a qualidade de vida de milhões de idosos: a solidão.
Ela não faz barulho. Não aparece nos exames laboratoriais. Não provoca febre nem deixa marcas aparentes. Ainda assim, pode adoecer o corpo, enfraquecer a mente e apagar, lentamente, a alegria de viver.
É importante compreender que estar sozinho não é, necessariamente, estar solitário. Há pessoas que vivem sozinhas e desfrutam de uma vida plena, cercadas por boas lembranças, amizades e projetos. Em contrapartida, muitos idosos convivem diariamente com familiares e, mesmo assim, sentem-se profundamente sós. A solidão verdadeira nasce quando falta diálogo, acolhimento e a certeza de que alguém se importa.
A vida moderna contribui para esse cenário. A rotina acelerada, o excesso de compromissos, a dependência das telas e a redução do convívio familiar diminuíram o tempo dedicado às conversas sem pressa, às visitas espontâneas e aos gestos simples de atenção. Sem perceber, muitas famílias passaram a dividir a mesma casa, mas não o mesmo tempo.
Para a pessoa idosa, essa ausência pesa ainda mais. Depois de décadas dedicadas ao trabalho, à criação dos filhos e à construção da família, é natural esperar que a maturidade seja acompanhada por convivência, reconhecimento e carinho. Quando isso não acontece, instala-se um vazio difícil de explicar.
As consequências vão muito além do aspecto emocional. A ciência tem demonstrado que o isolamento social está associado ao aumento dos casos de depressão, ansiedade, comprometimento da memória, piora das doenças cardiovasculares e declínio cognitivo. Em outras palavras, a solidão também adoece o organismo.
Felizmente, combater esse problema não exige grandes investimentos. Exige, sobretudo, disposição para estar presente.
Uma ligação telefônica feita sem motivo especial. Uma visita inesperada. Um café compartilhado. Um passeio pela praça. O convite para almoçar em família. Alguns minutos dedicados a ouvir histórias que talvez já tenham sido contadas outras vezes. Esses pequenos gestos possuem um efeito terapêutico que medicamento algum consegue substituir.
Também as comunidades têm responsabilidade nesse cuidado. Igrejas, centros comunitários, escolas, universidades e associações podem promover encontros, oficinas, grupos de convivência e atividades culturais que devolvam ao idoso a oportunidade de participar, aprender, ensinar e criar novos vínculos.
Os próprios idosos, sempre que possível, também podem ser estimulados a cultivar amizades, desenvolver novos interesses, praticar atividades físicas compatíveis com sua condição, participar de ações voluntárias e manter viva a curiosidade pelo mundo. Envelhecer não significa interromper a capacidade de aprender, de sonhar ou de contribuir.
Uma sociedade verdadeiramente humana não mede o valor das pessoas pela idade, mas pela dignidade que reconhece em cada vida. O idoso não precisa de piedade. Precisa de presença. Não deseja ser tratado como alguém incapaz, mas como alguém que continua tendo importância.
Talvez o maior antídoto contra a solidão seja a escuta. Ouvir alguém é dizer, sem palavras: “Você continua sendo importante para mim.” É devolver à pessoa o sentimento de que sua história ainda faz sentido.
Todos nós desejamos chegar à velhice levando conosco boas lembranças, pessoas queridas e a serenidade de quem sabe que não foi esquecido. Esse futuro começa a ser construído agora, nas escolhas que fazemos diariamente.
Que nunca nos falte tempo para visitar um idoso, ouvir suas histórias, sorrir ao seu lado e lembrar-lhe que sua presença continua enriquecendo nossas vidas. Afinal, quem dedica alguns minutos para vencer a solidão de alguém pode estar oferecendo muito mais do que companhia: pode estar devolvendo esperança. Porque, no fim das contas, ninguém deveria envelhecer sentindo-se invisível.
Por: Herculano Costa (*) – Jornalista – ACI Reg. Nº. 1.216 – Professor, Escritor e Poeta.
(*) – Neuropsicanalista Clínico – Reg. CNP N°. 09/4.159, COB 2515.50/2002, Decreto N°. 2.508.

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