De Olho na Língua
“À custa do pai” ou “Às custas do pai”?
A questão é um tanto polêmica. A maior parte dos nossos dicionários e gramáticos diz (ou dizem) que “custas” se usa apenas em linguagem jurídica, para designar as despesas feitas em processos judiciais (Deverá pagar as custas do processo) e que “à custa de” é a expressão a ser usada com o sentido de “com o dinheiro de”, “com os recursos de”, “com o sacrifício de”, “com o emprego de”, etc. Exs.: Ele vive à custa do pai; Este relógio só funciona à custa de pancadas; Conquistou a vaga à custa de horas sem dormir.
O uso, no entanto, parece contrariar essas recomendações, já que é muito comum o emprego de “às custas de” no lugar de “à custa de”. O Dicionário Houaiss, lançado em 2001, já registra “à custa de” e “às custas de” como equivalentes, de que dá estes exemplos: Desempregado, vivia à custa (às custas) do pai; Deu um fim àquela situação, porém a custa (às custas) de sua tranquilidade.
Pai e filho sofrem do coração. Há alguma impropriedade nessa frase?
Não, não há, embora sejam dois os corações: um do pai, o outro do filho. Isso, porém, não é motivo bastante para que se use o plural. Existe uma norma em nossa língua que justifica o emprego do singular: se algum nome genérico se aplicar em sentido distributivo a duas ou mais pessoas ou coisas, usar-se-á o número singular. Assim, construiremos também: A mãe e a filha foram operadas do apêndice; Todos os filhos dela têm defeito na boca;
Quando o pai perguntou às filhas se elas iriam ao cinema, responderam afirmativamente com a cabeça.
Paisinho / Paizinho (cuidado para não confundir)
Paisinho é diminutivo de país; paizinho, de pai. Há, ainda, a diferença de pronúncia: na primeira, existe hiato, portanto se diz: pa-i-si-nho. Já na segunda existe ditongo, portanto se pronuncia: pai-zi-nho. Ex.: Ele vive com o velho paizinho num paisinho na América Central.
Maria Luciana é o melhor advogado da empresa / Maria Luciana é a melhor advogada da empresa
Caso o departamento jurídico da empresa somente tivesse mulheres ou se ela se destacasse apenas entre as advogadas, diríamos que “Maria Luciana é a melhor advogada da empresa”. Entretanto, se ela é, dentre homens e mulheres, a pessoa mais capacitada para resolver as funções relativas ao direito dentro da empresa, devemos dizer: Maria Luciana é o melhor advogado da empresa.
Cliente ou freguês (Qual a diferença?)
Cliente é a pessoa que utiliza os serviços de um profissional liberal. Freguês é aquele que frequentemente compra coisas numa mesma loja, num mesmo armazém, num mesmo supermercado, etc. ou aquele que costuma ir sempre ao mesmo bar, restaurante, etc. A palavra é estrita ao comércio, seja legal, seja ilegal. Assim, travestis e prostitutas têm fregueses. Engenheiros, advogados, dentistas, médicos, arquitetos, etc. ou quaisquer outros profissionais liberais têm clientes, e não fregueses. Jocoso é imaginar um advogado dizendo que têm muitos “fregueses”, embora muitos não vejam jocosidade no oposto: Um comerciante dizer que tem muitos “clientes”. A graça é a mesma.
Isso já se tornou um “ciclo” vicioso. Está correto?
Não. Diga-se com acerto: Isso já se tornou um círculo vicioso. É a locução correta.
(*) Professor Antônio da Costa é graduado em Letras Plenas, com Especialização em Língua Portuguesa e Literatura, na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Contato: (088) 99373-7724.
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