Milhares de Fiéis Celebram os 220 Anos do Venerável Padre Ibiapina na Paraíba
Screenshot
SANTA FÉ DO IBIAPINA, SOLÂNEA (PB) — Milhares de fiéis, romeiros e peregrinos de diversas regiões do Nordeste reuniram-se no Santuário de Santa Fé, em Solânea, para celebrar uma marca histórica: os 220 anos de nascimento do Venerável Padre Ibiapina. Conhecido amplamente como o “Apóstolo da Caridade” e o “Missionário do Nordeste”, o religioso teve sua trajetória exaltada em uma grande programação festiva realizada em 5 de agosto de 2026. A festividade ganhou uma atmosfera ainda mais especial por se tratar da primeira grande celebração após o reconhecimento oficial de suas virtudes heroicas pelo Papa Francisco — um passo canônico fundamental em seu processo de beatificação.
Devocional na Madrugada e Caminhada de Fé
A abertura oficial das celebrações ficou por conta da tradicional romaria da madrugada, um emocionante percurso de fé que mobilizou caravanas desde as primeiras horas. Com concentração e início às 3h da manhã, os fiéis partiram em caminhada da Igreja Matriz de Santo Antônio, no centro de Solânea, acompanhados e animados pelos acordes da Banda Servo de Deus. O trajeto, inteiramente marcado por orações coletivas e cânticos católicos, seguiu rumo ao distrito de Santa Fé.
O destino final foi o renomado Santuário de Santa Fé (Memorial Padre Ibiapina), local de profunda relevância espiritual construído pelo próprio sacerdote e onde hoje repousam os seus restos mortais. Sob a coordenação do reitor do espaço, Padre Demétrio Pereira de Morais, o público pôde visitar instalações históricas preservadas, como a Antiga Casa de Caridade e a capela local.
Celebração Eucarística da Manhã
A primeira celebração eucarística da manhã iniciou-se em torno da mesa da Palavra e da Eucaristia. A missa foi presidida pelo Padre Antônio Batista (da cidade de Pedra Lavrada – PB) e contou com a concelebração do Padre Assis Meira (de Montadas – PB) e do Padre Gaspar Rafael, exorcista diocesano. Durante este ato matutino, que uniu o clero local e os peregrinos, os fiéis ergueram uma oração fervorosa pedindo a Deus a concessão do milagre necessário para o avanço definitivo rumo à beatificação do Padre Ibiapina.
Missa Solene, Fraternidade Episcopal e Presença do Clero
O grande ápice religioso do dia ocorreu às 16h com a realização da Missa Solene de encerramento. A principal Celebração Eucarística foi presidida por Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, bispo da Diocese de Sobral (CE) — terra natal do Padre Ibiapina —, que viajou para ministrar o sacramento no lugar exato onde Ibiapina concluiu sua missão terrena. A solenidade foi concelebrada pelo bispo diocesano de Guarabira, Dom Edilson Soares Nobre, colega de Colégio Pio Brasileiro de Dom Vasconcelos, e pelo bispo emérito do Crato (CE), Dom Fernando Panico.
Logo no início do rito, Dom Edilson dirigiu uma calorosa mensagem de acolhida aos seus irmãos no episcopado. Em suas palavras, expressou profunda gratidão pela presença de Dom Vasconcelos e Dom Fernando Panico, ressaltando que a união daqueles prelados no altar do santuário simbolizava a própria comunhão das igrejas particulares do Nordeste em torno da memória e do exemplo de santidade do Padre Ibiapina. Na oportunidade, o Pastor Diocesano também destacou e agradeceu, de forma efusiva, a presença de todo o povo de Deus e da expressiva representação vocacional da Igreja ali reunida.
Além da presença dos três bispos, o presbitério do anfiteatro ficou repleto com a presença marcante de dezenas de sacerdotes da Diocese de Guarabira e de províncias eclesiásticas vizinhas. Somaram-se a eles diáconos permanentes, que serviram com zelo às funções litúrgicas da mesa, além de uma comitiva de seminaristas diocesanos, simbolizando a continuidade e o vigor das vocações inspiradas pelo legado do Missionário do Nordeste.
A Homilia: A Liturgia do Dia e um resgate enfático da Missão de Ibiapina
Durante a homilia, Dom Vasconcelos uniu de forma profunda e simbólica a memória do nascimento de Ibiapina com a liturgia do dia: a dedicação da Basílica de Santa Maria Maior e de Nossa Senhora das Neves, padroeira da Paraíba. O prelado recordou as palavras do Papa Francisco de que, no Juízo Final, Deus não cobrará diplomas ou grandes cargos, mas sim o critério definitivo da caridade praticada.
Com forte teor pastoral, o Bispo de Sobral recordou e exaltou detalhadamente a árdua missão prática e itinerante de Ibiapina pelas terras castigadas do semiárido nordestino. Ele enfatizou como o sacerdote não se limitou aos discursos teóricos, mas gastou sua vida percorrendo os caminhos do sertão a pé ou a cavalo, identificando-se com as dores do povo sofrido. Dom Vasconcelos detalhou o impacto civilizatório e evangélico da sua obra: a organização dos mutirões comunitários para cavar açudes contra a seca, a abertura de estradas que conectavam comunidades isoladas e o sepultamento digno dado aos indigentes.
O prelado definiu o Padre Ibiapina — que incorporou o nome de Maria ao seu — como uma “nevasca simbólica” enviada por Deus ao sol escaldante do sertão, transformando-se em um rio de água viva que saciou a fome e a sede material e espiritual dos pobres.
Entrada da Estátua do Venerável Ibiapina
Após a comunhão, um dos momentos de maior comoção e plasticidade litúrgica ocorreu quando a assembleia foi convidada a acender e erguer as lanternas de seus telefones celulares, criando um impressionante mar de luzes no anfiteatro para a entrada solene da imagem oficial do Venerável Padre Ibiapina. O gesto fez Dom Fernando Panico recordar, emocionado, as antigas e tradicionais procissões de lamparinas de Juazeiro do Norte.
IHGS e Diocese de Sobral Outorgam Diploma
O momento de ápice cultural e acadêmico da festividade ocorreu com a participação do Professor Dr. José Luís Lira, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sobral (IHGS). Ao discursar, o professor recordou o legado do primo de avô materno, o Monsenhor Sadoc de Araújo, primeiro postulador do Padre Ibiapina. José Lira prestou uma emocionante homenagem ao Monsenhor Sadoc, que foi o grande estudioso, biógrafo e um dos maiores impulsionadores da causa de Ibiapina no passado, reforçando o que tinha sido dito em sua apresentação pelo Bispo Dom Vasconcelos.
Ao término da solenidade, em um ato de profunda relevância histórica, o Dr. José Luís Lira outorgou formalmente o Diploma de Homenagem In Memoriam nas mãos de Dom Edilson Soares Nobre. Emitido pelo IHGS em comunhão com a Diocese de Sobral, o documento recorda que Ibiapina é o Patrono Perpétuo da Cadeira Nº 01 do Instituto.
A leitura pública da láurea no altar reforçou os laços institucionais e a identidade cultural da região, conectando de forma indelével a terra natal do sacerdote ao local de seu repouso eterno. O diploma foi chancelado conjuntamente pelas assinaturas do Prof. Dr. José Luís Araújo Lira e de Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, Mestre.
Imagem do Ibiapina Jurista
Como gesto concreto de preservação da memória, o professor José Luís Lira também entregou ao reitor do santuário, Padre Demétrio Pereira de Morais, uma fotografia histórica do religioso totalmente restaurada com tecnologias modernas, que retrata sua fisionomia da época em que atuava como jurista e deputado. Além da imagem, foram entregues livros de sua autoria e organização que trazem ricos textos biográficos sobre o Venerável Ibiapina
Perfil Biográfico e Legado Sertanejo
José Antônio Pereira Ibiapina (que adotou o “de Maria” na ordenação) nasceu em Sobral (CE) em 5 de agosto de 1806. Formou-se na primeira turma da Faculdade de Direito de Olinda e Recife, destacando-se como um dos melhores alunos de sua geração. Construiu uma sólida carreira no ambiente civil, atuando brilhantemente como advogado e juiz de direito no Ceará. Ingressou na política partidária e chegou ao posto de Deputado Geral na Câmara do Império, no Rio de Janeiro, onde celebrizou-se ao enjeitar ofertas financeiras da coroa em nome de seus princípios.
Após profundas perdas familiares e crises políticas associadas à Confederação do Equador, abandonou os cargos civis e os diplomas seculares. Aos 47 anos de idade, foi ordenado sacerdote católico no Recife. Recusando o conforto das grandes paróquias urbanas, converteu-se em um missionário itinerante focado nas zonas mais áridas do Nordeste brasileiro.
Sua atuação pastoral unia evangelização profunda e forte desenvolvimento social por meio de mutirões operários. Ergueu açudes para combater a seca, abriu estradas, edificou capelas e construiu cemitérios para garantir enterros dignos à população sertaneja. Sua obra máxima foi a fundação de 22 Casas de Caridade, complexos voltados ao acolhimento, amparo espiritual, educação e profissionalização de meninas órfãs e desvalidadas. Faleceu com fama de santidade em 19 de fevereiro de 1883 no próprio local onde hoje repousam seus restos mortais, deixando um testemunho de fé inabalável que atrai milhares de devotos séculos depois.









About The Author






