Herculano Costa

Existe uma forma de sofrimento que raramente faz alarde. Não grita, não reclama e, muitas vezes, sequer encontra palavras para se revelar. É a solidão da pessoa idosa: silenciosa, discreta e profundamente dolorosa. Ao longo da vida, acumulamos bens, experiências, amizades e afetos. Entretanto, o passar dos anos também pode trazer perdas inevitáveis. Amigos partem, irmãos se vão, o cônjuge falece, os filhos constituem suas próprias famílias, os netos crescem, e a casa, antes repleta de vozes, risos e movimento, torna-se excessivamente silenciosa. O relógio parece caminhar mais devagar, e os dias, antes tão curtos, tornam-se longos e repetitivos. É importante compreender que solidão não significa apenas morar sozinho. Há idosos cercados por familiares que, ainda assim, sentem-se invisíveis. Participam das refeições, assistem à televisão na mesma sala, mas ninguém lhes pergunta como estão, o que pensam ou do que precisam. A pior solidão não é a ausência de pessoas, mas a ausência de atenção, de escuta e de pertencimento. A ciência tem demonstrado que a solidão prolongada compromete não apenas a saúde emocional, mas também a saúde física. Ela aumenta o risco de depressão, ansiedade, alterações cognitivas, doenças cardiovasculares e até da mortalidade precoce. O isolamento social corrói lentamente a esperança e reduz o entusiasmo pela própria vida. Contudo, antes mesmo das estatísticas mostrarem, basta observar o olhar de muitos idosos. Quantos aguardam, durante dias, o toque do telefone que já não toca? Quantos esperam uma visita que sempre fica para “no próximo fim de semana”? Quantos permanecem horas e horas diante da janela, vendo o movimento da rua como quem espera reencontrar um tempo que não volta mais? Vivemos numa sociedade acelerada, onde o tempo parece valer mais do que as pessoas. Estamos constantemente ocupados, conectados às redes sociais e, paradoxalmente, cada vez mais distantes uns dos outros. Muitas famílias acreditam que oferecer conforto material basta. Sem dúvida, ele é importante, mas nenhum bem substitui um abraço sincero, uma conversa tranquila ou a simples demonstração de que alguém continua sendo importante. O idoso necessita sentir-se útil, amado e necessário. Precisa perceber que sua presença faz diferença. Quando lhe perguntamos sobre sua juventude, seus desafios, suas conquistas e seus ensinamentos, estamos fazendo muito mais do que ouvir histórias: estamos reconhecendo sua dignidade e valorizando sua trajetória. Pequenos gestos possuem extraordinário poder transformador. Uma ligação inesperada. Um café compartilhado. Um passeio pela praça. Um convite para participar das decisões da família. Um neto que pede ajuda para um trabalho escolar. Uma fotografia antiga comentada em conjunto. Esses momentos, aparentemente simples, devolvem sentido aos dias e fortalecem os vínculos afetivos. Também cabe à sociedade assumir sua responsabilidade. Igrejas, escolas, universidades, clubes de serviço, associações comunitárias e órgãos públicos podem desenvolver programas de convivência, oficinas culturais, atividades físicas, grupos de leitura, ações de voluntariado e espaços permanentes de integração entre gerações. Quando diferentes idades convivem, todos aprendem: os jovens descobrem a riqueza da experiência; os idosos recuperam o prazer de continuar participando da vida. O envelhecimento não deve ser sinônimo de esquecimento. Quem passou décadas trabalhando, educando filhos, contribuindo para a comunidade e ajudando a construir a sociedade merece muito mais do que cuidados médicos. Merece presença. Merece respeito. Merece companhia. Há uma frase que resume bem essa reflexão: “ninguém envelhece apenas por causa dos anos; envelhece, sobretudo, quando deixa de sentir que pertence à vida de alguém”. Por isso, combater a solidão da pessoa idosa é um compromisso de todos nós. Não exige grandes recursos, mas disponibilidade para ouvir, compreender e compartilhar tempo. Porque, no fim das contas, o maior presente que podemos oferecer a um idoso não é algo que se compra. É a certeza de que ele continua sendo visto, lembrado, amado e indispensável.
“Quem caminha ao lado de um idoso não apenas acompanha seus passos; percorre, com respeito, a história que tornou possível o presente”!

Por Herculano Costa (*) – Jornalista – ACI Reg. Nº. 1.216 – Professor, Escritor e Poeta. (*) – Neuropsicanalista Clínico – Reg. CNP N°. 09/4.159, COB 2515.50/2002, Decreto N°. 2.508.

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