Por que falar sobre envelhecimento?
Falar sobre envelhecimento é falar sobre a própria vida. Pode parecer uma afirmação simples, mas nela existe uma verdade que nem sempre estamos dispostos a reconhecer: todos envelhecemos. O envelhecimento não é uma possibilidade distante reservada aos outros. É um processo que começa no nascimento e nos acompanha durante toda a existência. Talvez por isso seja tão necessário falar sobre ele.
Vivemos em uma época em que a ciência ampliou significativamente a expectativa de vida. Pessoas estão vivendo mais e, em muitos casos, com melhores condições de saúde. A longevidade, que durante séculos foi privilégio de poucos, tornou-se uma realidade cada vez mais presente.
Mas surge uma pergunta fundamental: estamos preparados para viver mais? E mais ainda: estamos preparados para conviver com aqueles que vivem mais? A resposta nem sempre é positiva.
Nossa sociedade ainda costuma associar a velhice à perda, à dependência, à doença, à improdutividade e à solidão. Como se envelhecer significasse necessariamente deixar de participar, deixar de escolher, deixar de sonhar. Essa visão precisa ser transformada.
Tem desejos, preferências, sentimentos, lembranças, medos, esperanças e projetos. Pode querer aprender algo novo, fazer amizades, viajar, trabalhar, participar de decisões, cuidar de alguém, ensinar, escrever, criar, amar e ser amado.
A idade cronológica não deveria determinar o tamanho dos sonhos de ninguém. Por isso, falar sobre envelhecimento é também falar sobre dignidade humana.
É discutir o direito de cada pessoa chegar à velhice sem ser abandonada, discriminada ou tratada como um peso. É pensar em famílias mais preparadas para cuidar. É construir comunidades onde o idoso possa continuar participando. É defender políticas públicas que reconheçam a longevidade como uma conquista social, e não como um problema. Mas falar sobre envelhecimento também significa olhar para dentro de nós mesmos.
Quando encontramos um idoso caminhando lentamente pela rua, quando ouvimos alguém repetir uma história, quando percebemos as limitações de um corpo que já não responde como antes, somos convidados a exercitar algo que a vida moderna parece estar nos fazendo esquecer: a paciência. Precisamos reaprender a esperar. Precisamos reaprender a ouvir. Precisamos reaprender a cuidar.
O envelhecimento modifica ritmos. O que antes era feito rapidamente pode exigir mais tempo. Uma lembrança pode demorar a chegar. Uma caminhada pode ser mais lenta. Uma conversa pode precisar de pausas. Nada disso diminui o valor daquele que envelheceu. Ao contrário: talvez seja a nossa pressa que precise ser revista.
Há também uma dimensão familiar nessa discussão. O envelhecimento de um pai, de uma mãe, de um avô, de uma avó ou de qualquer pessoa querida pode despertar sentimentos contraditórios. Amor, preocupação, medo, impaciência, culpa e insegurança podem aparecer ao mesmo tempo. Nem sempre sabemos como cuidar. Nem sempre sabemos como lidar com as mudanças. Nem sempre conseguimos compreender que aquele que envelhece também está aprendendo a conviver com um corpo e com uma realidade diferentes.
Por isso, cuidar exige conhecimento, mas exige principalmente sensibilidade. Não basta perguntar se o idoso tomou o remédio. É preciso perguntar como está se sentindo. Não basta oferecer comida. É preciso, quando possível, compartilhar a mesa. Não basta estar fisicamente presente. É necessário estar emocionalmente disponível. Não basta proteger. É preciso respeitar.
E talvez essa seja uma das maiores lições do envelhecimento: cuidar não é substituir a vida do outro pela nossa vontade. É ajudá-lo a continuar vivendo com a maior autonomia, segurança e dignidade possíveis.
Falar sobre envelhecimento é, portanto, falar também sobre solidariedade entre gerações.
Uma sociedade saudável não coloca jovens contra idosos, nem considera uma geração mais importante que outra. Cada etapa da vida possui seu valor. Os mais jovens carregam energia, inovação e novos sonhos; os mais velhos carregam experiências, memórias e conhecimentos construídos ao longo de décadas.
Quando essas gerações dialogam, todos ganham. Os idosos precisam dos jovens, mas os jovens também precisam dos idosos. Precisam de suas histórias.
Por Herculano Costa (*) – Jornalista ACI – R.I. N° 1.216 – Professor, Escritor e Poeta
(*) – Neuro Psicanalista Clínico com especialização em Psicopatologia e Neurodesenvolvimento. Reg. No CNP N° 09/4.159- CBO 2515.50/2002-Dec N° 2.208.
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