O idoso e o direito de continuar pertencendo

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Herculano Costa

Há uma forma de abandono que não deixa marcas no corpo, mas fere profundamente a alma. Ela acontece quando o idoso deixa de ser ouvido, consultado, convidado ou lembrado. É quando, pouco a pouco, perde o lugar que sempre ocupou na família, na comunidade e na sociedade. Por isso, falar sobre o direito do idoso de continuar pertencendo é falar sobre dignidade, cidadania e respeito à própria condição humana.
Pertencer é muito mais do que estar presente. É sentir-se parte de algo. É perceber que sua existência continua fazendo diferença para as pessoas que ama e para o mundo ao seu redor. É saber que sua opinião ainda importa, que sua presença é desejada e que sua história continua sendo valorizada.
Durante décadas, o idoso foi protagonista de sua própria vida. Trabalhou, educou filhos, enfrentou dificuldades, construiu patrimônio, participou da vida social e ajudou a transformar a realidade de sua comunidade. Entretanto, paradoxalmente, justamente quando mais necessita de acolhimento e reconhecimento, muitos passam a experimentar um silencioso processo de exclusão.
A aposentadoria, a saída dos filhos de casa, as limitações físicas e as mudanças provocadas pela tecnologia podem contribuir para um sentimento de inutilidade. Não raramente, familiares tomam decisões sem sequer consultar aquele que sempre foi referência dentro do lar. Aos poucos, ele deixa de participar das conversas, das comemorações, das escolhas e até mesmo das pequenas decisões do cotidiano.
Esse afastamento produz consequências profundas. A ciência demonstra que o sentimento de pertencimento é um dos fatores que mais influenciam a saúde emocional e até mesmo a saúde física das pessoas idosas. Quem se sente incluído apresenta menores índices de depressão, ansiedade, isolamento social e declínio cognitivo. Em contrapartida, a solidão prolongada pode afetar o sistema imunológico, aumentar o risco de doenças cardiovasculares e comprometer significativamente a qualidade de vida.
Mais do que oferecer cuidados materiais, é necessário oferecer espaço. O idoso precisa continuar participando das reuniões familiares, das celebrações, dos projetos da comunidade, das atividades religiosas, culturais e recreativas. Sempre que possível, deve ser ouvido nas decisões que dizem respeito à própria vida e até mesmo à vida familiar. A experiência acumulada ao longo dos anos constitui um patrimônio que nenhuma inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, será capaz de substituir.
As famílias exercem papel decisivo nesse processo. Pequenos gestos fazem enorme diferença: convidar o avô para conversar, pedir sua opinião, ouvir suas histórias, compartilhar fotografias antigas, incentivar a convivência com netos e bisnetos, celebrar datas importantes e criar oportunidades para que continue exercendo algum papel ativo dentro da família.
Também a sociedade precisa rever seus conceitos sobre envelhecimento. Ainda persistem preconceitos que associam a velhice exclusivamente à dependência, à improdutividade ou à incapacidade. Essa visão não corresponde à realidade. Nunca houve tantos idosos ativos, empreendedores, voluntários, estudantes, escritores, artistas e cidadãos participando da vida pública. O envelhecimento não elimina talentos; apenas lhes confere novas formas de expressão.
As políticas públicas igualmente possuem responsabilidade. Municípios, escolas, universidades, igrejas e organizações da sociedade civil podem desenvolver programas de convivência intergeracional, incentivar o voluntariado, ampliar centros de convivência, promover atividades culturais e garantir espaços onde o idoso continue exercendo plenamente sua cidadania.
Existe uma sabedoria africana que afirma: “Quando um ancião morre, é como se uma biblioteca inteira fosse destruída.” A frase nos convida a refletir sobre o valor inestimável da experiência humana. Cada pessoa idosa carrega consigo histórias, conhecimentos, memórias, afetos e ensinamentos que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.
Cuidar do idoso não significa apenas garantir medicamentos, alimentação ou assistência médica. Significa assegurar-lhe o direito de continuar pertencendo. Pertencendo à família, aos amigos, à comunidade, à cidade e à própria história que ajudou a construir.
A verdadeira grandeza de uma sociedade não se mede apenas pelo progresso econômico ou tecnológico, mas pela maneira como trata aqueles que lhe dedicaram os melhores anos de suas vidas. Quando acolhemos nossos idosos e preservamos seu lugar entre nós, não estamos apenas honrando o passado. Estamos construindo um futuro mais humano para todos, pois, se a vida permitir, todos nós desejamos, um dia, continuar pertencendo.
Por Herculano Costa (*) – Jornalista – ACI Reg. Nº. 1.216 – Professor, Escritor e Poeta. (*) – Neuropsicanalista Clínico – Reg. CNP N°. 09/4.159, COB 2515.50/2002, Decreto N°. 2.508.

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