Quando a memória falha: compreender para acolher

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Herculano Costa

Envelhecer não significa, necessariamente, perder a memória. Entretanto, algumas alterações cognitivas podem surgir com o avanço da idade, variando desde pequenos esquecimentos, considerados naturais, até doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer e outras formas de demência. Diante dessa realidade, a sociedade é chamada a substituir o julgamento pela compreensão e a impaciência pelo acolhimento.
É comum ouvirmos frases como: «Ele pergunta a mesma coisa várias vezes», «Ela esqueceu meu nome», «Ele não lembra onde colocou os objetos». Muitas vezes essas situações geram irritação nos familiares, quando, na verdade, representam um pedido silencioso de ajuda.
A memória é um dos mais preciosos patrimônios do ser humano. Ela guarda nossa história, nossas experiências, nossos afetos e nossa identidade. Quando começa a falhar, não é apenas a capacidade de recordar que se fragiliza; muitas vezes, é a própria segurança emocional da pessoa idosa que fica comprometida.
Quem sofre com alterações da memória costuma experimentar sentimentos de medo, vergonha e insegurança. Alguns percebem que estão esquecendo acontecimentos recentes e passam a evitar conversas por receio de serem ridicularizados. Outros nem sequer conseguem reconhecer suas limitações, o que aumenta ainda mais a vulnerabilidade.
Por isso, o primeiro cuidado deve ser a compreensão. Esquecer não é falta de interesse. Repetir perguntas não é teimosia. Confundir datas ou nomes nem sempre significa desatenção. Em muitos casos, trata-se de uma condição clínica que exige acompanhamento médico, estímulos cognitivos e, sobretudo, muito carinho.
O ambiente familiar exerce papel decisivo. Corrigir o idoso de maneira ríspida, confrontá-lo ou insistir para que se lembre de algo, pode provocar ansiedade e sofrimento desnecessários. Em vez disso, vale a pena conversar com serenidade, utilizar lembretes visuais, manter uma rotina organizada e estimular atividades que preservem as funções cognitivas.
Também é importante compreender que nem todo esquecimento é doença. O envelhecimento saudável pode trazer pequenas lentidões no processamento das informações, sem comprometer, significativamente, a autonomia. Daí a importância de uma avaliação profissional, capaz de diferenciar alterações normais do envelhecimento de quadros patológicos.
A ciência tem mostrado que hábitos saudáveis ajudam a preservar a saúde cerebral. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono de qualidade, leitura, jogos de raciocínio, convivência social e controle das doenças cardiovasculares contribuem para manter o cérebro ativo por mais tempo.
Mas nenhum tratamento substitui o poder do afeto. O idoso que se sente amado, respeitado e incluído, tende a enfrentar melhor suas limitações. Mesmo quando a memória se apaga parcialmente, as emoções permanecem vivas. Muitas pessoas deixam de recordar acontecimentos, mas continuam reconhecendo gestos de carinho, o tom acolhedor da voz e a sensação de segurança proporcionada pela presença daqueles que amam.
Cuidar de alguém com perda de memória é um exercício diário de paciência. É compreender que, se a pessoa esqueceu quem somos, nós jamais devemos esquecer quem ela foi e tudo o que representou para nossa família e para nossa história.
Quando a memória falha, o amor precisa lembrar por nós. E talvez essa seja uma das mais belas formas de retribuir uma vida inteira de dedicação.
Por Herculano Costa (*) – Jornalista ACI – R.I. N° 1.216 – Professor, Escritor e Poeta
(*) – Neuro Psicanalista Clínico com especialização em Psicopatologia e Neurodesenvolvimento. Reg. No CNP N° 09/4.159- CBO 2515.50/2002-Dec N° 2.208.

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