Sagrado Coração de Jesus, nós temos confiança em vós! 

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dom vasconcelos nispo de sobral

Reunimo-nos com profunda alegria e gratidão, em torno do altar do Senhor, para celebrar a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Com o coração de pastor, olho para cada um e vejo a caminhada da nossa Igreja. Vejo as lutas, as alegrias, as esperanças e, não raro, as cruzes pesadas que muitos carregam no seu dia a dia. É exatamente para a nossa realidade concreta, muitas vezes marcada pelo cansaço, pelas incertezas e pela desesperança do tempo presente, que a liturgia da Palavra nos aponta um caminho de refúgio, de cura e de restauração: o Coração manso e humilde do nosso Salvador.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é um mero sentimentalismo passageiro, não é uma piedade de outros tempos e muito menos uma espiritualidade desvinculada dos nossos compromissos com a vida. Pelo contrário, é o mergulho no mistério central e mais profundo da nossa fé. Como nos recordou tantas vezes o saudoso Papa Bento XVI, e como o Papa Francisco insistiu em nos ensinar, ao contemplarmos o lado aberto de Cristo na cruz, do qual jorraram sangue e água (cf. Jo 19,34), nós contemplamos o amor de Deus que se fez carne e habitou entre nós. É a síntese de todo o mistério cristão. Do alto, de braços abertos – imagem tão familiar à nossa realidade arquidiocesana, que diariamente nos abençoa –, o Cristo nos mostra o Seu coração compassivo, permanentemente aberto para acolher a humanidade. É a promessa feita a Santa Margarida Maria Alacoque que continua a ressoar: “Eis o Coração que tanto amou os homens…”.
Nesta liturgia riquíssima do Ano A, a primeira leitura, extraída do livro do Deuteronômio (Dt 7,6-11), nos revela o alicerce insubstituível deste mistério: a gratuidade absoluta da eleição divina. O autor sagrado coloca nos lábios de Moisés palavras que recordam ao povo de Israel a sua própria identidade: “O Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes o mais numeroso de todos os povos – na verdade, sois o menor de todos –, mas porque o Senhor vos amou”.
Paremos um instante para refletir: que libertação extraordinária há nestas palavras! Nós vivemos imersos em uma sociedade que, ditada pelas lógicas do mercado e da eficiência, nos exige o tempo todo sermos os maiores, os mais fortes, os mais produtivos, os mais bem-sucedidos e os mais aplaudidos. A cultura atual nos julga pelo que temos e pelo que produzimos, descartando os que não se encaixam nesse padrão. Mas o Senhor nos diz exatamente o oposto. Ele não nos ama porque somos perfeitos, poderosos ou impecáveis. Ele nos ama pela nossa pequenez, pelas nossas fragilidades. O amor do Coração de Jesus é totalmente livre e gratuito. Ele nos escolhe não pelos nossos méritos acumulados, mas pela imensidão da Sua infinita misericórdia. Saber-se amado assim devolve a dignidade a qualquer coração ferido.
O Salmo Responsorial de hoje (Sl 102/103) faz eco a essa ternura paterna de Deus e nos convida a um profundo louvor: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo”. Quantas vezes, nas tribulações de nossa grande cidade, diante das notícias de violência, do aumento do desemprego, da fome que ainda bate à porta de tantos irmãos, das crises que desestruturam as famílias e da solidão que esmaga os corações nas nossas ruas movimentadas, nós nos sentimos esquecidos por Deus? O Salmo, porém, nos garante: Ele não nos trata segundo nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas. O Seu coração pulsa de compaixão por nós, como um pai se compadece de seus filhos. Deus conhece a nossa estrutura, sabe que somos pó, e justamente por isso a Sua misericórdia se inclina sobre a nossa miséria para nos levantar.
Esta certeza transformadora é coroada na segunda leitura, onde o apóstolo João, em sua primeira carta (1Jo 4,7-16), nos dá a definição mais bela, revolucionária e profunda de Deus que a humanidade já recebeu em toda a sua história: “Deus é amor”. Prestem atenção, irmãos: São João não diz apenas que Deus tem amor, ou que Deus faz atos de amor. Ele diz que a própria essência de Deus é o amor. E o Apóstolo insiste para não deixar dúvidas sobre a ordem desse amor: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele quem nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados”.

Cardeal Orani João Tempesta – Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

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