Um legado imaterial do primeiro Bispo de Sobral
Caro leitor, o mês de setembro é por décadas vivenciado na Igreja no Brasil como o mês da Bíblia. Sem desprezar este aspecto, todavia, o mês de setembro, tem para os sobralenses algo de peculiar: é chamado o Setembro de Dom José. Isto porque foi no dia 10 de setembro de 1882 que aqui, em Sobral, nasceu a criança que seria o primeiro Bispo desta Diocese e o maior Benfeitor de toda a Região Norte do Estado do Ceará, Dom José Tupinambá da Frota. E ainda no mês de setembro, no dia 25 de setembro de 1959, há exatamente 64 anos atrás, aquele grande homem fez sua Páscoa eterna, deixando marcado na história seu grande legado.Na liturgia que a Igreja celebra nesta sexta-feira da 25ª do tempo Comum, Coélet, o sábio inspirado por Deus, nos diz que tudo tem seu tempo. “há um tempo para tudo. Que há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo da terra”. Esta afirmação nos faz pensar como Dom José soube viver e ser protagonista de tantas realizações sob às bençãos de Deus o seu tempo. Recordando que sua Diocese foi criada em 1915! Ano de terrível seca, que fez a inesquecível cearense Raquel de Queirós escrever o Bessler “O Quinze”! Podemos dizer ainda que Dom José Tupinambá da Frota não viveu apenas o seu tempo, mas que viveu além do seu tempo! Foi um homem visionário!
Preocupou-se, como Bom Pastor, com tudo o que diz respeito à vida e bem-estar do Povo de Deus a ele confiado, desde a saúde, à educação, à formação, ao cuidado dos idosos!

A propósito celebramos hoje também, 73 anos da fundação do Abrigo de idosos Sagrado Coração de Jesus, fundado por Dom José há 73 anos atrás! Receba nossos parabéns todos os responsáveis por aquele lar, hoje representado por Deborah, sua atual Diretora! O Abrigo Sagrado Coração de Jesus, hoje é filial do Complexo Santa casa de Misericórdia de Sobral, quiçá a maior obra do nosso ilustre predecessor, que hoje administrado por seus Diretores: Frei Bartolomeu Schultz e Senhora Renata Morbeck que levam com afinco as melhorias naquele importante complexo hospitalar.
Pois bem, como dizia, guiado pelo Espírito Santo de Deus, Dom José viveu plenamente o seu tempo e além do seu tempo. Ofereceu todo o seu ser para que Sobral, em suas palavras: “minha Roma”, isto é, “minha cidade eterna”, “minha cidade sagrada”, crescesse na Fé, na Esperança e na Caridade.
No Evangelho da Liturgia de hoje Jesus, nosso Mestre e Senhor provoca os cristãos de todos os tempos e lugares a responder uma pergunta fundamental: “Para vós quem sou Eu?” e não basta uma resposta teoricamente correta, mesmo que inspirada nas palavras do Apóstolo São Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” Esta resposta, embora correta, estava aquém de tudo aquilo que São Pedro poderia imaginar. A ideia que São Pedro tinha do Messias não correspondia em nada àquela que lhe foi revelada na Cruz, no Calvário onde o Filho do homem foi elevado e atraiu todos a si.
Quando falamos em uma pessoa, costumeiramente nos referimos ao que ela fez, ao que construiu, ao que deixou. Muitos falam por exemplo nos milagres e prodígios realizados por Jesus, mas poucos são capazes de discernir os sinais, como diz o Evangelista São João por trás de cada milagre realizado por Jesus.
Assim também, muitos evidenciam as obras realizadas por Dom José Tupinambá da Frota que desafiam os anos e teimam em permanecer de pé, mas poucos enfatizam da sua obra imaterial por ele deixado: pouco se fala do legado espiritual, do legado intelectual, humanístico, pastoral e missionário que do José deixou, particularmente no Clero que ele formou e deixou para dar continuidade á sua obra.
Muitos contemplam as suas obras físicas estruturantes, cuja relevância é absolutamente inegável: os Colégios centenários que moldaram gerações, o teto acolhedor do Abrigo, o majestoso Seminário Diocesano, a tão necessária Santa Casa de Misericórdia, o Jornal Correio da Semana, o mais antigo periódico do Estado do Ceará em circulação ininterrupta, a Rádio Educadora do Nordeste, O Museu Diocesano que hoje ostenta o nome do nosso ilustre primeiro Prelado.
Sobre tudo isto muitos já falaram. Falar, porém, das mentes e dos corações iluminados, forjados na disciplina austera, na espiritualidade profunda, no amor às letras e sobretudo no amor a Deus e ao seu Povo, que Dom josé deixou, poucos falam.
Quero convidar o leitor a erguer os olhos para uma dimensão ainda mais profunda, invisível aos olhos do mundo, mas eterna diante de Deus: a missão episcopal e sacerdotal de santificar (o munus sanctificandi) que Dom José exerceu plenamente e com zelo incansável ao longo de todo o seu frutuoso pastoreio.
É precisamente dentro deste contexto de santificação e zelo pelas almas que o Seminário São José da Bethânia, que funcionava onde hoje funciona a Universidade vale do Acaraú, ganha o seu verdadeiro e mais bonito relevo. Ele não era apenas um edifício imponente, mas o coração pulsante da Diocese. Por aquelas salas e corredores passaram inúmeros jovens. Muitos deles ouviram o chamado à vocação sacerdotal e foram ordenados padres desta Diocese.
A eficácia santificadora daquela instituição, todavia, se manifestou também de outra forma: muitos daqueles adolescentes e jovens que entraram naquele Seminário, não tinham vocação sacerdotal. Entravam porque sabiam que ali se encontrava a mais perfeita formação que o Brasil poderia oferecer. Ali podiam estudar latim, grego, francês e um português invejável! Ali aprendiam boas maneiras e aprendiam a amar, a respeitar, a “entrar e sair”, como costumamos dizer. E a Igreja sabia disso, e Dom José sabia disso! Mas permitia que lá residissem e estudassem, seminaristas que talvez não apresentassem sinais vocacionais para o sacerdócio ministerial, mas que bebendo daquela fonte seriam futuros homens de bem.
Daqueles que por lá passaram saíram cidadãos íntegros, honrados e exemplares. Juízes, desembargadores, políticos íntegros, homens de bem! Foram homens que exerceram suas funções fora da estrutura eclesial, mas que brilharam como sal da terra e luz do mundo na sociedade, graças à sólida formação humana, intelectual e espiritual que ali receberam.
Essa união indivisível entre a caridade e a santificação das realidades temporais fica nítida quando olhamos para a fundação da nossa Santa Casa de Misericórdia. É de suma importância destacar que, para erguer essa imensa obra de socorro aos desamparados, Dom José empregou os recursos oriundos da venda do antigo prédio da histórica Casa de Caridade de Sobral, fundada pelo Padre Ibiapina. Há aqui um belíssimo e profundo mistério de continuidade espiritual. O Padre José Antônio de Maria Ibiapina, o célebre “Apóstolo do Nordeste”, nasceu aqui em nossa amada Sobral. E o seu processo de santificação é, atualmente, o mais avançado entre os servos de Deus nascidos no território desta Diocese, visto que ele já foi oficialmente declarado Venerável pela Santa Sé, no pontificado do saudoso Papa Francisco, que reconheceu solenemente suas virtudes heroicas. As pedras e os recursos da caridade de Ibiapina tornaram-se os alicerces da misericórdia de Dom José, provando que a santidade gera frutos perenes que atravessam os séculos.
A fecundidade apostólica de Dom José Tupinambá da Frota encontra eco nos números impressionantes de seu ministério, que revelam a magnitude de um trabalho que atravessou gerações. Durante os seus 43 anos de episcopado em Sobral, Dom José ordenou exatamente 98 sacerdotes, garantindo que o múnus de santificar continuasse a ser exercido em cada canto deste território por meio das mãos de seus filhos espirituais.
O fruto mais evidente de uma liderança voltada para a santificação é o florescimento da própria santidade entre os seus membros. E a nossa Diocese recebeu essa bênção de forma abundante. Sob a paternidade espiritual e a formação de Dom José, surgiram almas excepcionais que hoje caminham rumo ao reconhecimento oficial dos altares. É com profunda reverência que destacamos que Dom José ordenou sacerdotes dois Servos de Deus da Diocese de Sobral: o Monsenhor Joaquim Arnóbio de Andrade e o Monsenhor Waldir Lopes de Castro, além de ter gerado no episcopado o bispo mártir de Garanhuns PE, Dom Francisco Expedito Lopes. Não é possível aqui falar sobre cada um deles, mas motivo-os a conhece-los! São homes santos da nossa Diocese!
Na Sucessão Apostólica, Dom José também demonstra como a graça episcopal se estendeu para além dos limites geográficos de Sobral, deixando uma expressiva linhagem na Igreja universal. Como Consagrante Principal, além de ter sagrado o mártir Dom Francisco Expedito Lopes (1948), ele impôs as mãos e consagrou a Dom José Bezerra Coutinho (1956), nomeado bispo auxiliar de Sobral e que mais tarde continuaria sua missão episcopal em outras Dioceses.
A atuação e prestígio de Dom José Tupinambá da Frota como Co-Consagrante também ligaram a Diocese de Sobral a importantes marcos da Igreja no Brasil, participando da ordenação episcopal de grandes pastores: Dom Ricardo Ramos de Castro Vilela (1919), primeiro bispo da Diocese de Nazaré da Mata (PE); Dom João Tavares de Moura (1919), primeiro bispo da Diocese de Garanhuns (PE); Dom Joaquim Ferreira de Melo (1921), segundo bispo da Diocese de Pelotas (RS) e Dom Aureliano de Matos (1940), o estimado primeiro bispo da Diocese de Limoeiro do Norte (CE). Embora tenham sido ordenados bispos após o falecimento de Dom José, Dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo emérito de Limoeiro do Norte, que este ano celebra seus 60 anos de Ordenação Episcopal e 102 anos de vida, permanecendo lúcido, graças a Deus; Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, já falecido, bispo emérito da Diocese de Afogados da Ingazeira e Dom Benedito Francisco de Albuquerque, bispo emérito da Diocese de Itapipoca, estão entre os 98 sacerdotes ordenados pelo primeiro Bispo de Sobral.
A essa constelação de sacerdotes exemplares somam-se outros filhos espirituais de Dom José que expandiram as fronteiras da atuação eclesial em Sobral, gravando seus nomes na história do desenvolvimento humano e intelectual da região.
Sacerdotes que marcaram à nossa história, frutos de uma formação sólida oferecida e acompanhada pelo imortal antiste sobralense:
Entre os grandes legados daqueles que já partiram, destacamos o Monsenhor Aloísio Pinto, pilar da educação profissionalizante sobralense, que dedicou seu ministério ao acolhimento e à formação técnica dos jovens necessitados por meio da Escola Profissional São José, fundada em 1948. Ele também dirigiu o Colégio Sobralense e, no campo pastoral, foi o responsável pela construção da igreja que hoje é a matriz da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, no bairro Sinhá Sabóia. Ao lado desses grandes luminares processados nos altares, a história diocesana registra outros sacerdotes inesquecíveis, moldados sob o mesmo cajado de Dom José, que viveram em flagrante odor de santidade.
Como esquecer o incansável zelo sacerdotal e comunitário do Monsenhor José Furtado Cavalcanti? Ordenado em 1944, ele fez da Serra da Meruoca o altar de sua doação por meio século. Monsenhor Furtado foi o pastor cujo zelo ultrapassou as fronteiras do templo: foi pai, conselheiro, construtor de capelas e estradas, e até mesmo médico do corpo e da alma de um povo serrano desamparado, gastando cada gota de sua saúde física para santificar as realidades humanas e espirituais daquela comunidade.
E o que dizer da singular e terna figura do Monsenhor Luís Ximenes Aragão Freire, o inesquecível vigário de Santa Quitéria por mais de 40 anos? Homem de cultura vasta, educador brilhante e portador de uma belíssima sensibilidade artística, Monsenhor Ximenes unia os mistérios de Deus à beleza da palavra. Sua poesia tocante, eternizada em livros como Sonetos do Trem Perdido e Liturgia dos Trens, revelava o que ele mesmo chamava de sua “alma ferroviária” — uma metáfora genial em que via a vida espiritual como uma viagem de trem capitaneada por Deus, trilhando os caminhos da retidão. Conhecido carinhosamente como o “Maquinista da Fé”, ele conduziu a comunidade quiteriense com a mansidão dos poetas e a firmeza dos santos, partindo para a vida eterna de forma mística em 1994, minutos após descer do altar ao celebrar a Santa Missa.
No campo das letras, o Padre Osvaldo Chaves personificou a sabedoria clássica como um dos grandes expoentes da literatura e da poesia cearense, influenciando gerações de escritores com sua rica produção literária, que incluiu traduções refinadas de Homero.
A caridade evangélica ganhou contornos práticos no testemunho do Monsenhor João Batista Frota, o “Missionário da Solidariedade”, cujo legado social imensurável combateu a fome e a desnutrição infantil no semiárido por meio do premiado projeto Cabra Nossa de Cada Dia que representou Sobral na COP 30 ano passado, para orgulho e alegria de todos nós.
Integra essa memória de valor inestimável o Padre José Linhares Ponte (o querido Padre Zé), uma mente brilhante e multifacetada que atuou como psicólogo, filósofo e educador. Reitor do Seminário São José e por longos anos diretor da Rádio Educadora, ele marcou a história da saúde regional ao capitanear, com maestria administrativa, a provedoria da Santa Casa de Misericórdia de Sobral e ao fundar o pioneiro Hospital do Coração — que justamente hoje o homenageia levando seu nome — além de empreender no turismo local com a criação do Hotel Visconde. Sua liderança vocacional cruzou os umbrais eclesiais, alcançando projeção nacional como respeitado deputado federal e presidente do Conselho Estadual de Educação.
Brilha também a recordação do Monsenhor Gonçalo de Pinho Gomes, que embora não tenha sido ordenado por Dom José, foi por ele formado. O Monsenhor Gonçalo, a quem eu nomeei meu primeiro Vigário Geral, saudoso Pároco Emérito desta Sé Catedral, era possuidor de uma erudição ímpar e de um zelo pastoral que moldou o coração da principal comunidade paroquial da Diocese, ele eternizou-se na memória afetiva local como um exímio e rigoroso professor de português no tradicional Colégio Estadual Dom José.
Muitos outros poderiam ser elencados nesta lista ilustre, mas o tempo e o espaço não nos permitem. Perdoem-me os que foram omitidos.
Deixando marcas profundas no presente, a continuidade dessa missão permanece viva no testemunho de sacerdotes que continuam enriquecendo nossa história. Sacerdotes que eu, o sétimo bispo diocesano de Sobral, assim como muitos dos presentes tiveram a graça de conhecer, alguns deles, inclusive ainda vivos e presente entre nós:
Na vanguarda do ensino superior, sobressai o Monsenhor Francisco Sadoc de Araújo, cuja brilhante trajetória encontra-se hoje resguardada em um terno silêncio, em decorrência de sua frágil saúde. Autêntico sacerdote sobralense, ele iniciou sua caminhada no Seminário Diocesano local e, acompanhado de perto pelo olhar de Dom José, foi enviado para concluir seus estudos e ser ordenado em Roma. Intelectual brilhante e historiador, eternizou seu legado como o fundador e primeiro reitor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), transformando Sobral em um polo universitário de referência.
Ao seu lado, com consciência e vitalidade, reluz a estirpe intelectual do Monsenhor Francisco Manfredo Thomaz Ramos. Embora não tenha recebido a imposição de mãos de Dom José, foi por este discernido e enviado à Cidade Eterna para beber direto da fonte acadêmica europeia. Doutor e pós-doutor pela prestigiada Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, ele consolidou-se como um dos maiores filósofos, teólogos e patrólogos do País — com destaque internacional em estudos agostinianos. Símbolo de fidelidade e saber, ele celebra no próximo ano, o marco histórico e luminoso de seus 70 anos de sacerdócio.
Temos, ainda, o zeloso Monsenhor Manoel Valdery da Rocha, homem de profunda escuta, paciência e proximidade com os mais vulneráveis, cuja trajetória como estimado diretor e professor universitário na UVA caminha lado a lado com sua histórica dedicação pastoral; foi presidente do Conselho Nacional dos Presbíteros por anos, sendo uma das figuras mais queridas e respeitadas do clero diocesano e fora dele.
O Monsenhor Francisco de Assis Magalhães Rocha, o nosso Mestre da comunicação, muitos anos Diretor da Rádio educadora no Nordeste. Consagrou à sua vida a Evangélica Opção Preferencial pelos pobres. Serviu muitos anos na Diocese de Afogado da Ingazeira -PE, ao lado de Dom Francisco Austragésilo. É o profeta da Libertação. Ainda hoje lidera um grupo de ex seminaristas do antigo Seminário da Bethânia, que não foram ordenados, mas alimentam o orgulho de terem sido alunos daquele glorioso estabelecimento de ensino para a vida.
Ao celebrarmos hoje esta data, pedimos a todos e suplicamos aos céus, que não seja para nós apenas uma lembrança nostálgica do passado, mas um chamado urgente ao presente. Somos herdeiros de uma linhagem de santos, de pastores zelosos e de uma tradição de profunda vida litúrgica e sacramental. Que inspirados pelo exemplo de Dom José, pela caridade pioneira do Venerável Padre Ibiapina, pelos Servos de Deus Monsenhor Arnóbio e Monsenhor Waldir, pelo sangue de Dom Expedito Lopes, possamos também nós assumir o nosso chamado universal à Santidade. Não é possível aqui falar sobre cada um deles, mas motivo-os a conhece-los! São homes santos da nossa Diocese!
Todo este legado que Dom José Tupinambá da Frota nos deixou, continua a ser referência para os seminaristas, padres, diáconos, agentes de pastoral, leigos e leigas dos tempos hodiernos e motivo de ação de graças a Deus que fez esta Diocese nascer sob o cajado de Pastor tão zeloso e sábio. Que o Deus o tenha e que Jesus, o Filho do Deus Vivo, a quem serviu até à morte, seja conhecido, amado e seguido, ontem, hoje e sempre! Amém.
† José Luiz Gomes de Vasconcelos
Bispo Diocesano de Sobral
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