“Ide vós também para a minha vinha” (Mt 20,7)
DOM Vasconcelos
Meditando a liturgia da Palavra deste 25° Domingo do Tempo Comum, encontramos um elemento comum pautado no verbo “mover”. As leituras nos indicam a necessidade de sair de um lugar letárgico, vazio de sentido, para um novo horizonte: o do Reino. Deus é o patrão da vinha que sai a todo momento em busca de empregados dispostos a servir. O Senhor está perto de nós e quer contar conosco para a realização da sua obra; por isso nos chama e é generoso em sua recompensa, concedendo a todos, sem distinção, o valor justo, que é a vida eterna. Levantemo-nos, pois, reconheçamos que somente uma coisa importa — viver o Evangelho — e sigamos a voz do Mestre que nos diz: “Ide vós também para a minha vinha”.
Todos nós fazemos planos para o futuro. Alguns traçam metas de desenvolvimento profissional e acadêmico; outros procuram conquistar cargos e títulos; outros ainda planejam conquistas para a família, comemorações, férias… Enfim, são tantos os motivos que movem as pessoas a buscarem algo melhor. Dentro de cada ser humano habita uma insatisfação positiva, que nos move a querer algo a mais para a nossa vida: é a força de vontade que nos coloca a caminho. Tudo isso é importante, mas nada disso fará sentido se deixarmos de lado a finalidade principal da nossa existência. Fomos criados para a união perfeita com Deus e podemos dizer com Santo Agostinho: “fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. A liturgia nos motiva a essa busca do que realmente importa; por isso, devemos rezar hoje para avaliar se os direcionamentos que estamos tomando para nossa vida são, de fato, caminhos que nos aproximam de Jesus.
Na primeira leitura – Is 55,6-9 –, o profeta Isaías convoca o povo a voltar para Deus. O contexto se situa no fim do exílio da Babilônia. Depois de quase cinquenta anos, o povo de Israel poderá voltar à Terra Prometida. Alguns deles, entretanto, já haviam constituído uma vida, tinham projetos na Babilônia e perderam o interesse em retornar. O profeta, portanto, reafirma que o exílio foi um tempo de amadurecimento e purificação, mas é preciso ir para o lugar que lhes foi destinado pelo próprio Deus. Um novo horizonte se abre, mas alguns não querem assumi-lo. O Senhor coloca diante de nós a novidade de um futuro que se inaugura hoje. Novamente, podemos até ter projetos e vidas formadas, mas serão eles verdadeiramente da vontade de Deus? Recordemos do exemplo de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Enquanto ele se encontrava acamado, após sofrer o tiro de um canhão em 1521, passou a ler a biografia dos santos, sentindo-se impelido a seguir o seu exemplo. Ao mesmo tempo, recordava-se das grandes conquistas de cavaleiros e soldados nobres, que também o inspiravam. Nisso, questionava-se qual desses caminhos seria o melhor: seguir como cavaleiro ou deixar tudo por Cristo. Ele, à luz do Espírito Santo, reconheceu que o magis, o melhor, o maior, é dar o máximo de si por amor a Deus. Esse é o fruto do discernimento: optar pelo magis, que é Jesus.
Para reafirmar a nossa opção por Deus, só temos o hoje. Estamos em um contexto de aceleração da vida; tudo passa muito rápido, e, em meio a tantas transformações, podemos nos perder na volatilidade da existência. A Palavra nos alerta para uma atitude de vida firme, que nos coloca diante da verdade e nos acorda para a renovação espiritual. É hora de voltar para Deus! Nesse sentido, alguns pontos são necessários. Em primeiro lugar, precisamos tomar consciência dos passos que demos até aqui, ver com os olhos da fé o que fizemos bem e em que falhamos. Como segundo passo, o arrependimento será fundamental para nos tornar humildes e abertos à mudança. Depois, temos de revalorizar a vida, tendo claro quais aspectos são mais urgentes para o nosso desenvolvimento pessoal. Assim, ao traçar metas, poderemos nos levantar e seguir confiantes e esperançosos. Se confiarmos que uma só coisa é necessária — viver o Evangelho de Cristo —, teremos o mesmo ânimo de São Paulo, reconhecendo que o viver é Cristo e o morrer é lucro – Fl 1,20c-24.27a.
O Evangelho de Mateus apresenta a parábola do patrão que contrata empregados para a vinha – Mt 20,1-16a. O patrão sai sempre em busca de trabalhadores. Religiosamente, ele cumpre a sequência de uma Liturgia das Horas: sai de madrugada para as Laudes; depois, à Hora Terça, às nove da manhã; em seguida, à Hora Sexta, ao meio-dia; às três da tarde, à Hora Nona; e para as Vésperas, às cinco da tarde. Deus nos busca constantemente. Aos padres, religiosos, consagrados e a todos os que rezam o breviário, vejam quão belo é o sentido da liturgia: o Senhor passa em busca de nós. Será que Ele nos encontra em oração e serviço nas horas em que a Igreja nos pede uma pausa restauradora? A oração é a força para nos mover a trabalhar na vinha; por isso, ao longo de nossa jornada de trabalho cotidiano, é tão importante dedicar momentos de pausa para revigorar o espírito em Deus. Essa dinâmica do ora et labora (orar e trabalhar), ensinada por nosso pai São Bento, relembra à alma que não fazemos nada por força própria, mas com o auxílio da graça de Deus.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist. – Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
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