DOM Vasconcelos

DOM Vasconcelos

Outubro, período em que a Igreja Católica no Brasil vivencia o seu tradicional Mês Missionário, momento em que esta reflexão surge não como uma mera repetição de um rito do calendário pastoral, mas como uma resposta necessária às urgências do presente. No cenário contemporâneo, marcado pelo avanço das tecnologias digitais, pela aceleração das rotinas, pelo isolamento social e por profundas transformações culturais que desafiam tanto a “Igreja Doméstica” quanto as estruturas eclesiais globais, deter-se sobre a essência da missão torna-se um imperativo espiritual e social.
Revisitando os fundamentos bíblicos, a trajetória histórica e o empenho de instituições como as Pontifícias Obras Missionárias (POM) e o Conselho Missionário Nacional (COMINA), esta série de reflexões lança luz sobre o papel da família, o testemunho profético em realidades remotas como a Amazônia e o apelo à unidade (“Um em Cristo, unidos na missão”) como caminhos de esperança e renovação para o tempo presente.
A vocação missionária da Igreja não é um ornamento pastoral nem uma construção recente, mas a própria razão de sua existência, cujas raízes afundam na Revelação bíblica e na constante autorrenovação eclesial ao longo da história. No horizonte das Escrituras, a missão transparece como o movimento do próprio Deus (Missio Dei) que sai de si para ir ao encontro da humanidade.
Desde a promessa feita a Abraão para abençoar todas as famílias da Terra, passando pelo envio dos profetas, a dinâmica missionária atinge seu ápice na encarnação de Jesus Cristo, o Missionário do Pai. O Evangelho de São João sintetiza essa entrega ao recordar a oração sacerdotal de Jesus: “Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18). Esse mandato desdobra-se nos Atos dos Apóstolos, documento vital de uma Igreja nascente que se compreende essencialmente “em saída”, impulsionada pelo Espírito Santo a cruzar fronteiras culturais e geográficas.
No percurso da tradição eclesial, a percepção institucional dessa urgência amadureceu significativamente, culminando na instituição do Mês Missionário. Em 1926, o Papa Pio XI estabeleceu há 100 anos o penúltimo domingo de outubro como o Dia Mundial das Missões, confiando às Pontifícias Obras Missionárias a tarefa de despertar a consciência evangelizadora em toda a cristandade. No Brasil, essa iniciativa encontrou terreno fértil a partir de meados do século XX, especialmente após as profundas intuições do Concílio Vaticano II (1962-1965).
O decreto conciliar Ad Gentes selou a virada teológica ao reafirmar que a Igreja peregrina é, por sua própria natureza, missionária. Inspirada por esse impulso e fortalecida pelas Conferências Episcopais Latino-Americanas — de Medellín a Aparecida —, a Igreja no Brasil assumiu o mês de outubro não apenas como uma campanha financeira temporária, mas como um itinerário pedagógico e místico que envolve todas as dioceses, paróquias e comunidades do país.
Esse percurso histórico e teológico fundamenta e ilumina a proposta vigente para este ano, sintetizada na Campanha Missionária sob o tema “Um em Cristo, unidos na missão” e inspirada pelo lema “Para que o mundo creia” (cf. Jo 17,21). A escolha dessas palavras não é fortuita: ela resgata a dimensão eclesiológica e comunitária da evangelização em um momento histórico marcado pelo esgarçamento do tecido social, pelo individualismo e pelas polarizações.
A Bíblia ensina que a eficácia do testemunho cristão não reside em estratégias humanas ou em aparatos midiáticos, mas na profundidade da comunhão dos discípulos com o Mestre e entre si. A unidade em Cristo torna-se, assim, o grande sinal credível do Evangelho perante o mundo; sem ela, a ação missionária corre o risco de se reduzir a um ativismo estéril ou a uma mera propaganda institucional.
Compreender o Mês Missionário sob esse embasamento permite reconhecer que o período de outubro não se esgota no encerramento de suas celebrações litúrgicas ou na contabilização das coletas solidárias. As reflexões, orações e gestos semeados durante este tempo deixam brechas abertas para que o Espírito continue a fecundar a vida eclesial nos meses e anos subsequentes.
O que for plantado agora sobre a necessidade de comunhão, conversão pastoral e abertura às periferias servirá como semente para novas intuições teológicas, repensamentos metodológicos e reconfigurações comunitárias. Assim, a tradição que se renova a cada outubro garante que a Igreja no Brasil permaneça fiel à sua origem bíblica, consciente de seu percurso histórico e corajosamente projetada para o futuro da missão.
Sejamos missionários em Cristo para que o mundo creia!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Tema: “Um em Cristo, unidos na missão”
Lema: “Para que o mundo creia” (cf. Jo 17,21)

About The Author

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *